O cinema brasileiro está vivo? Expressamos em nossas películas um universo unicamente nosso? Que seria de nós se não fizessem filmes em nosso País?
Interessante e improvável o dia em que essas perguntas figurarem na mente do brasileiro comum, aquele que perde o transporte para o serviço e ainda se anima segundos depois quando perguntam sobre o seu time predileto.
Interessante, pois, seria o momento em que o Brasil iria atribuir ao cinema a sua verdadeira dimensão – uma ‘‘realidade’’ dentro da realidade. Observem o cotidiano americano e constatem o quanto o cinema é fundamental em sua formação. Os filmes são ‘‘formados por’’ e formam ao mesmo tempo o universo moral daquela nação. Os tabus, as trangressões, as normas, tudo passa pelas tramas propostas pelos roteiristas. (Não se atribui necessariamente a essa constatação qualquer consideração estética, que fique bem claro).
Improvável porque nossos cineastas estão cada vez mais confusos – afinal, o cinema no Brasil é uma aventura estética ou uma possibilidade de se ganhar a vida? Esse é um dos dilemas mais frequentes na mente de nossos diretores (‘‘afinal, precisamos sobreviver’’, alegam).
Entretanto a resposta é simples – só há possibilidade de se fazer um cinema autêntico no Brasil sem se preocupar com as questões financeiras. Torna-se óbvio – não temos uma indústria, não temos equipamento e nem demanda de mercado interno que propiciem a consolidação de uma indústria audiovisual no País. Sob esses aspecto, as questões pertinentes ao mercado deveriam ser as mais raras, não? Ledo equívoco de sua lógica, caro leitor. Os cineastas brasileiros estão cada vez mais preocupados com as leis de incentivo, as parcerias para a distribuição e quanto o filme irá render. Essas questões têm sua importância, mas não podem predominar na mente de um artista. Cabe ao nosso cineasta investigar, se aprofundar e registrar em imagens tudo aquilo que constitui nosso país – seu folclore, suas tramas, suas peculiaridades, suas qualidades e fraquezas. Um retrato detalhado daquele universo que habitamos a cada segundo de Brasil, a cada átimo de sofrimento, ou a cada ínfimo (e raro) instante de prazer.
Há cerca de um mês a TV Cultura exibiu o documentário que Sílvio Tendler fez sobre o enterro de glauber Rocha, em agosto de 1981. Em uma mesma sala, estavam Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirzsman, Paulo Cesar Saraceni, Arnaldo Jabor, Hugo Carvana, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, e ele, glauber Pedro de Andrade Rocha, o nosso glauber. Escrevo glauber com ‘‘g’’ minúsculo pois para mim glauber acabou se tornando um adjetivo.
De toda a nata do cinema nacional ali reunida, só um diretor estava realmente vivo. Quem era esse? O nosso glauber. (Até morto ele nos ensina!). Vivo porque glauber sintetiza tudo aquilo exposto em linhas anteriores. Sua preocupação era unicamente estética – ele sabia que um país se muda e se constrói com idéias, e não por meio de lucros ou balanços positivos. Por que o cinema brasileiro tem de ser uma indústria? Se for, tudo bem, melhor para o Brasil! Mas essa não é a questão principal. Há milhões de histórias a serem contadas, registradas, filmadas, transpostas, elucidadas, exploradas, desenvolvidas, redimensionadas, revistas, ampliadas, contextualizadas, melhoradas e deformadas. E os nossos cineastas teimam em falar em incentivo fiscal?
E por que glauber está vivo? Pois ele percebeu o que tem de ser cinema brasileiro e o que não tem de ser. Criou estética própria – uniu ao barroco europeu o western americano –, e aplicou tudo no sertão. Por que Mário Peixoto está vivo? Por ‘‘Limite’’ (seu único filme) reunir em uma só película o que havia de mais moderno na Europa, o de mais sincero na alma de Peixoto e o de mais natural em nosso ‘‘fazer filmes’’ – a espontaneidade e o artesanato. Esse cinema caseiro, que se reiventa e não permite concessões, deve ser o nosso, já que uma indústria parece tão distante quanto desnecessária. Ao menos em curto prazo.
E por que a morte de glauber simboliza a morte do cinema brasileiro? Pois ele era um dos últimos a preservar em sua proposta cinematográfica uma vontade incontrolável de descobrir o Brasil. É a mesma vontade que nutriu tantos filmes de Humberto Mauro, Nelson Pereira dos Santos e de outros grandes do cinema novo. Mas que ultimamente está se extinguindo em nossos realizadores contemporâneos. Pois o Brasil acaba sempre relegado a segundo plano...
A questão acaba se resumindo a um ponto fundamental – o Brasil precisa mais de uma indústria ou de uma estética cinematográfica que nos mostre o que é ser brasileiro? Bem, certamente mais vale um ‘‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’’ do que cem ‘‘A Partilha’’, não é?. Pois então glauberizemos o nosso cinema, falemos de nosso povo, nossas angústias e nossas limitações. Indústria sim, mas a estética sempre em primeiro lugar. O resto é consequência...

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