Mortes trágicas de astros pop nunca passam impunes por biógrafos caça-níqueis, tablóides sensacionalistas e xeretas de toda espécie. Quando Kurt Cobain meteu um tiro na cabeça em 5 de abril de 1994, várias versões nebulosas sobre o episódio disputaram a atenção da mídia. Uma delas virou um documentário bombástico nas mãos do diretor inglês Nick Bloomfield que, em ''Kurt & Courtney'', transforma Courtney Love na principal suspeita pela morte do marido e líder da banda de rock Nirvana.
''Kurt & Courtney'' será exibido hoje pela primeira vez na TV brasileira. Vai ao ar às 23h20 no canal pago GNT (Net/Sky), depois de uma controversa passagem por festivais, incluindo o prestigiado Sundance do qual foi deletado da programação na última hora. Bloomfield tenta mostrar que Cobain não se matou, mas foi assassinado. A viúva, que é vocalista da banda Hole, seria a mandante do crime.
Para provar sua tese, o diretor reúne depoimentos de amigos de Cobain e de vários detratores da moça - incluindo seu pai Hank Harrison, um ex-empresário da banda Grateful Dead. Harrsion surge na tela apenas para esculhambar a filha revelando detalhes de brigas dela na escola. Omite, porém, o fato de que abandonou a família quando Love tinha três anos de idade. Um ex-namorado lança mais intriga ao acusar a cantora de se aproveitar de sua carreira tentando fazer com ele ''o que fez com Kurt''.
O detetive Tom Grant, contratado por Courtney Love para encontrar Kurt - que havia fugido de uma clínica de recuperação para drogados -, apresenta sua teoria conspiratória segundo a qual o músico foi assassinado porque não poderia estar consciente depois de injetar 1,25 mg de heroína na veia. O tom sensacionalista do documentário chega ao ápice com o depoimento do cantor de rock El Duce, que confessa ter recebido (mas não aceitado) a oferta de 50 mil dólares de Courtney Love para matar Kurt Cobain.
A parcialidade de Bloomfield é escandalosa. O diretor não entrevistou ninguém do departamento de polícia de Seattle e muito menos cumpriu os beabás dos manuais de jornalismo ouvindo o ''outro lado'', especialmente a própria suspeita. A primeira parte do filme, todavia, oferece imagens raras e curiosas sobre a infância e adolescência do cantor. Um Kurt Cobain ainda bebê aparece cantando a música ''Hey Jude'', dos Beatles, enquanto que um professor de ginásio conta como ele sofrera com a separação dos pais.
''Cobain era muito amigo dos meus filhos e acabou morando no sofá por dois meses'' - revela. Kurt e Courtney casaram-se em 1992, no Havaí. A imprensa marrom norte-americana acusava o casal de usar drogas pesadas durante a gravidez da esposa. A polícia tentaria, inclusive, tomar a guarda da única filha de Cobain, Frances Bean. Os problemas com as drogas continuaram no dia-a-dia dos dois. Muitos acreditam que isso tenha sido a causa do suicídio.
''Kurt & Courtney'' foi lançado em 1998 cercado de controvérsias. Courtney, que se recusou a dar entrevistas para o diretor, fez de tudo para impedir a chegada do filme às telas. Anunciado na programação do Festival de Cinema de Sundance, ele foi vetado na última hora pelos advogados da cantora sob a alegação de que Bloonfield não tinha permissão para usar trechos das canções ''Smells Like Teen Spirit'' e ''Doll Parts''.
Mesmo assim, ''Kurt & Courtney'' foi mostrado numa única sessão para a imprensa e convidados especiais no festival paralelo Slamdunk, um dos vários concorrentes do Sundance na vitrine dos independentes. Começava aí a saga de exibições em festivais pelo mundo e que agora chega ao Brasil na TV paga.

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