A morte das baleias
A seguir, fragmento de No Coração do Mar em que Nathaniel Philbrick descreve a maneira como as baleias eram caçadas e mortas. Utilizando botes de 7,5 metros abarrotados por seis homens, cordas, arpões e lanças afiadas, lutavam com baleias de mais de vinte metros e comprimento. Mesmo assim, os navios da Ilha de Nantucket mataram mais de 225 mil cachalotes na primeira metade do século 19.
O arpão não matava a baleia. Era apenas o meio de a tripulação de uma baleeira se prender à sua caça. Depois de deixar que a criatura se cansasse descendo a grandes profundidades ou apenas rasgando a superfície da água , os homens começavam a rebocar o bote para perto, centímetro por centímetro, até chegar a uma distância que permitisse golpear a baleia. Nesse ponto, o arpoador e o imediato haviam trocado de posição, façanha absolutamente milagrosa em embarcação diminuta e estreita como a baleeira. Esses dois homens tinham não só de enfrentar o violento sacolejo do bote sobre as ondas o que podia ser tão forte que os pregos se soltavam das pranchas da proa e da popa como também manter-se afastados da corda da baleia, que vibrava como uma corda de piano ao longo da faixa central do bote. Mas, por fim, o arpoador conseguia chegar ao leme, e o imediato, a quem sempre se concedia a honra de matar, assumia sua posição na proa.
Se a baleia desse mostras de um vigor excessivo, o imediato tolheria seus movimentos, apanhando uma pá afiada e cortando os tendões da cauda. A seguir, ele empunhava a lança matadeira, que tinha entre 3,0 e 3,6 metros de comprimento, e cuja lâmina em forma de pétala era projetada para perfurar os órgãos vitais da baleia. Mas encontrar a vida de um mamífero nadador gigante, envolto por uma espessa camada de gordura, não era coisa fácil. Às vezes o imediato era obrigado a golpear até quinze vezes, em busca de um grupo de artérias espiraladas nas proximidades dos pulmões, com um brutal movimento sacolejante que logo cercava a baleia com o furor de um rio de sangue vermelho e brilhante.
Quando afinal encontrava seu alvo, a baleia começava a sufocar no próprio sangue, seu esguicho se transformava em um gêiser de sangue de 4,5 até 6,0 metros de altura, que levava o imediato a gritar: A chaminé acendeu!. Enquanto o sangue chovia sobre eles, os homens empunhavam os remos e remavam furiosamente para longe, depois se detinham para contemplar, enquanto a baleia entrava no que era conhecido como seu espasmo. Batendo a água com o rabo, trincando o ar com a mandíbula da mesma forma que fazia quando regurgitava grandes punhados de peixes e lulas , a criatura começava a nadar em um círculo cada vez mais fechado. Depois, tão abruptamente quanto havia iniciado o ataque com o primeiro arremesso do arpão, tudo terminava. A baleia ficava imóvel e em silêncio, um cadáver negro e gigantesco que flutuava ao comprido no leito do seu próprio sangue e vômito.





