Que tipo de mecanismo pode levar um homem a cometer um assassinato contra sua própria vontade? Que tipo de mecanismo pode levar um homem que comete um assassinato a aceitar ser assassinado como sequência natural do processo?
A questão não é encontrar as possíveis respostas, mas conseguir entender que tipo de moral há por trás das entranhas do mecanismo. O fato é que os códigos morais podem ser uma bandeira em favor da vida ou uma flâmula em nome da morte.
O escritor albanês Ismail Kadaré leva esta discussão às últimas consequências no romance ‘‘Abril Despedaçado’’. Lançado semana passada pela Editora Companhia das Letras, o livro se baseia num rígido código de honra chamado Kanun, utilizado há séculos por habitantes das áridas montanhas do norte de Albânia. Graças ao Kanun, famílias dizimam umas às outras através dos séculos em nome de vingança.
‘‘Abril Despedaçado’’ deu origem ao novo filme de Walter Salles (diretor de ‘‘Central do Brasil’’) que deve ser exibido no segundo semestre de 2001, ainda sem data definida. Na versão cinematográfica de Salles, as áridas montanhas da Albânia são substituídas pela caatinga do nordeste brasileiro – local de lendárias desavenças familiares resolvidas à bala.
‘‘Abril Despedaçado’’ narra a história de um jovem montanhês chamado Gjorg que precisa, por uma questão de honra familiar, assassinar um homem. Mesmo não querendo realizar tal ato, é impelido a fazê-lo em nome de leis morais. Sua família vive uma vendeta (vingança motivada por assassinato) com outra família do vilarejo que se prolonga por quase cem anos.
Gjorg precisa vingar o assassinato do irmão, a 45ª morte do conflito. Seguindo o costume, a camisa ensanguentada do falecido fica exposta num varal no interior da residência. O momento exato para o acerto de contas é assinalado pela própria camisa: quando o vermelho do sangue começa a perder a coloração e tornar-se amarelado, é o sinal de que o falecido está solicitando vingança para poder descansar em paz.
Gjorg precisa matar quem matou seu irmão para preservar a honra da família por gerações e gerações. Para isso necessita seguir uma série de regras ditadas pelo Kanun – como usar arma de fogo, não atirar pelas costas, avisar a vítima antes de apertar o gatilho, acomodar o corpo em determinada posição e, o mais importante, o alvo não pode sobreviver ao atentado. Se isso ocorrer, uma pesada multa deve ser paga à família da vítima. Além disso, deve estar presente ao enterro e comparecer ao almoço fúnebre servido na residência da família enlutada.
Ao cumprir todas essas leis pregadas oralmente, Gjorg terá direito a uma trégua de 30 dias. Nesse período, ninguém deve vingar-se dele. Mas, esgotada a trégua, lhe restará apenas duas opções: ser morto numa tocaia e esperar que outro membro da família honre seu falecimento assassinando o responsável, ou viver enclausurado para o resto da vida. Esse enclausuramento é realizado em construções mantidas por padres onde os recolhidos são privados de luz, passando a viver na completa cegueira. Não há escolha: a morte, a cegueira, ou a desonra.
Paralelo a trajetória de Gjorg, em ‘‘Abril Despedaçado’’ Ismail Kadaré, narra a história de um jovem escritor chamado Bessian. Rico habitante de uma grande cidade, Bessian é autor de vários romances ambientado na miserável região onde o Kanun impera. É o tipo de literato que escreve sobre o que conhece apenas teoricamente. Algo como um escritor suíço que ambienta suas histórias em favelas do Rio de Janeiro que conhece por fotografias e notícias de jornais.
Bessian, após casar-se com uma bela dama, resolve passar a lua de mel na região retratada em seus livros. Seu objetivo é unir uma viagem festiva com a experiência de conhecer ao vivo o lendário Kanun que tem conhecimento apenas através de relatos alheios. O resultado é trágico. A esposa, Diana, entrando em contato com a dimensão do absurdo da violência, da fé na humanidade passa ao mundo do delírio, vivendo a um passo da loucura irreversível.
O destino faz com que melancolia do olhar de Gjorg se encontre, por alguns segundos, com o desespero de Diana. Um simples instante que fará com que cada um siga caminhos atordoados, entre a ascensão e a decomposição do ser humano. O destino dizendo em alto e bom som que, quando uma pessoa entra em contato com uma outra realidade, pode extrair da experiência o néctar de uma flor ou sentir os ossos serem triturados pelo peso de uma atormentada novidade incompreensível.
‘‘Abril Despedaçado’’ é desenhado com uma pesada aura de absurdo, algo que está mais próximo da realidade do que a própria realidade em si. Kadaré revela como um código moral pode substituir a necessidade do comando do Estado. Um código moral que, pela miséria material e humana em que está inserido, é mais eficiente que as leis de um país. Abandonada, determinada comunidade pode desenvolver códigos éticos próprios. Códigos que podem ser lógicos ou delirantes, mas sempre mais acolhedores que o desprezo dos governantes.
‘‘Abril Despedaçado’’ pode ser lido, e entendido, de várias formas. Essa é uma das grandes características da literatura de Ismail Kadaré: a capacidade de sempre conferir um caráter fabular à suas histórias, invariavelmente situadas em contextos regionais e historicamente definido.
Na realidade ‘‘Abril Despedaçado’’, escrito em 1978, não é uma novidade propriamente dita no mercado editorial brasileiro. A mesma Companhia das Letras publicou um edição anterior do livro em 1991, com tradução realizada a partir de uma versão em língua francesa. A nova edição traz outra tradução realizada diretamente do original em albanês feita por Bernardo Joffily e revista pelo próprio autor.
Para o leitor que nunca teve às mãos uma narrativa de Kadaré, ‘‘Abril Despedaçado’’ é a obra certa. Oferece uma dimensão abrangente do universo do escritor, considerado atualmente um dos maiores romancistas europeus. Depois de abandonar seu país natal e exilar-se na França, em 1990, sua obra passou a ser conhecida no mundo todo. No Brasil possui outros seis títulos publicados: ‘‘Dossiê H’’, ‘‘Concerto no Fim do Mundo’’, ‘‘O Palácio dos Sonhos’’, ‘‘A Pirâmide’’ (todos pela Companhia das Letras), ‘‘A Ponte dos Três Arcos’’ e ‘‘Três Cantos Fúnebres Para o Kosovo’’ (pela Editora Objetiva).
Se aventurar pela páginas de ‘‘Abril Despedaçado’’ é entrar no círculo vicioso da violência humana. Sem direito a uma soneca, nem chá com bolachas. Kadaré parece dizer que toda violência da história da humanidade está apoiada em motivos racionais, seja através de princípios, interesses, normas ou até mesmo a honra. E, quando a violência não possui sentido, a cultura se empenha em construir uma lógica para tal impulso. E assim segue a humanidade, sempre afirmando que a violência é, por natureza, algo instintivo, mas que sua legitimação é realizada através da lógica, pela razão.
• ‘‘Abril Despedaçado’’, De Ismail Kadaré, Editora Companhia das Letras, tradução de Bernardo Joffily, 208 páginas, R$ 23,50

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