A moderna subversão da ordem
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quarta-feira, 06 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Qualquer um que assistiu TV ou leu jornais nos últimos dois ou três anos, ficou sabendo que a tal ''globalização econômica'' não é um fenômeno aceito passivamente por todo mundo. Protestos gigantescos, confrontos com policiais ou faixas contra o FMI e o Bird apareceram com frequência no noticiário revelando uma nova geração de opositores do capitalismo.
O livro ''Guerrilha Surreal'' (Conrad), de José Chrispiniano, narra o dia-a-dia dos grupos anti-globalização durante as ações de rua em Praga, capital da República Tcheca, em setembro de 2000. O autor é de São Paulo. Tem 24 anos, a idade média dos jovens engajados. Jornalista free-lancer, colaborador da revista Caros Amigos, ele passou um mês em Praga acompanhando desde a chegada dos diversos ativistas à cidade até o dia da manifestação contra a reunião do FMI.
Estudantes, zapatistas, punks, verdes, anarquistas, comunistas, trotskystas, sem-terras, sindicalistas, pacifistas, artistas e voluntários de organizações não-governamentais (ONGs) desfilam pelas 161 páginas do volume agrupados em núcleos de contestação como o Reclaim The Streets, o Direct Action Network, o Yo Basta!, o Black Blocks e a Ruckus Society. O livro é narrado como um diário de viagem, enriquecido com entrevistas e informações históricas sobre o movimento.
Logo na abertura, o autor conta a sorte que teve ao ser abordado por policiais dentro do trem. Faltando doze dias para o encontro, a vigilância tinha sido reforçada sobre os pontos de fronteira. Ele carregava duas malas, mas só uma foi revistada. Se abrissem a outra, teriam encontrado material de pesquisa de jornalista: livros e e-mails impressos. Nada de mais, mas que seria motivo para os policiais embaçarem a viagem.
Praga veio a reboque de Seattle, cidade norte-americana que inaugurou o ciclo de sublevações anticapitalistas. Houve ainda Toronto, Washington, Gênova, Barcelona e várias outras cidades. Em todas, ocorreram os ''Dias de Ação Global'', datas marcadas em contraponto a um encontro de organizações-símbolo do capitalismo mundial como o G7, FMI, Banco Mundial e OMC. ''Guerrilha Surreal'' transporta o leitor para dentro dos acampamentos onde os grupos se preparam para o dia 26, a data das manifestações.
As atividades incluem produção de faixas e bonecos, oficina de primeiros socorros, curso básico de inglês e tcheco, proteção contra spray de pimenta e até aulas de samba. Na manhã do dia 26, todos se encontram na praça Miru, de onde sairão em passeata quilométrica em direção ao Centro de Convenções, local do encontro do FMI. ''Os grupos comunistas tradicionais, das mais diversas tendências, nitidamente destoavam do clima da maioria'' escreve ele.
''Enquanto gritavam palavras de ordem sem ritmo, em passeatas disciplinadas ao redor da praça, os outros preparavam suas fantasias para a manifestação ou dançavam techno. Uma menina dava um show, dançando completamente alucinada, não sei se de êxtase ou de ecstasy. Aquilo era uma rave, uma performance artística, um piquenique, um encontro socialista e também uma manifestação política. E uma imensa loja de briquedos para jornalistas em dúvida sobre o tipo curioso que escolheriam para entrevistar ou fotografar''.
O governo tcheco estimou a presença de 10 mil pessoas na marcha, recuando depois para 5 mil. O inpeg, organização autônoma que abriga os diversos grupos, contabilizou 15 mil. ''A impressão não era de uma manifestação contra o FMI, mas de uma marcha do orgulho gay'' assinala o autor após observar as fantasias usadas pelos ativistas. Um grupo trajava macacões brancos carregando colchões, coletes salva-vidas inflados ou folhas de papelão coladas em fita adesiva para enfrentar as tropas de choque da polícia.
Havia ainda óculos de natação contra spray de pimenta, máscaras contra gás lacrimogênio e câmaras de pneu de caminhão que, juntas, formavam ''paredes'' para empurrar os policiais. Os escudos eram latas de lixo ou feitos de papelão com o mapa-múndi desenhado neles. Na cabeça, capacetes de moto, bicicleta e construção. As ''armas'' eram pistolas e metralhadoras d'água e milhares de bexigas coloridas, para ''liquidar'' o FMI e o BIRD (Banco Mundial), como estava escrito nelas.
José Chrispiniano descreve toda a jornada de piquetes até seu esvaziamento com as prisões e a partida dos participantes. O livro reúne ainda 40 e poucas fotos dos dias de guerrilha. O prefácio é do historiador Nicolau Sevcenko. Chega às livrarias a R$ 20,00.


