Rosângela Vale

Agência Estado
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No desfile de Lino Villaventura, modelos eram personagens de Oscar Wilde e os bordados apareceram em profusãoNostalgia, luxo, romantismo e opulência. O final de semana do MorumbiFashion, que terminou ontem em São Paulo, teve tudo isso e muito mais. Teve a moda cool e jovialíssima de Sommer, a demi-couture de Walter Rodrigues e Fause Haten, a alfaiataria impecável da Cia de Linho, o minimalismo desconstrutivo da Iódice e o japonismo bem executado de Renato Loureiro. Mas a imagem mais forte foi deixada por Lino Villaventura, que levou parte da platéia às lágrimas.
Cada peça criada por Lino prende a atenção, aguça o olhar e desperta os sentidos. Por isso, a emoção vem à tona. Com um cenário suntuoso, repleto de velas, tapetes persas, almofadas e uvas, os modelos eram personagens do universo do escritor Oscar Wilde. O clima tedioso dos salões de baile da época deu o tom às performances. Marina Dias lia Rimbaud enquanto Daniela Rotelli encarnava a diva de ocasião, em um instigante jogo de sedução com um jovem dândi vitoriano. ‘‘Quis passar a idéia de uma atmosfera viciosa. A relação de uma mulher com um garoto representa isso’’, explicou o estilista.
Lino transporta seu barroquismo para o final do século XX, criando volumes plissados e sobreposições assimétricas. Os preciosos bordados aparecem em corselets, casacos e vestidos - as delicadas flores de veludo na barra das saias transparentes são puro encantamento. Arrematando os looks, meias bordadas desenvolvidas pela Puket, e sapatos altíssimos, com dois tipos de salto em um só modelo - plataforma na frente e agulha atrás. Camisas leves, cinturadas, de punho comprido e rendado são algumas das peças unissex assim como as calças afuniladas.
Também feitos para momentos de sonho, os vestidos de noite mostrados por Walter Rodrigues trazem referências aos mestres Dior e Balenciaga, mas a obsessão do estilista pelo shape longilíneo dos anos 30 direciona boa parte da coleção. Os primeiros looks seguem a regra: pretos longos em tecidos fluidos sobrepondo-se em camadas, com belos drapeados e bordados acompanhando os decotes.
Na segunda parte do desfile, cores intensas, inspiradas na pintura fauvista, tomam conta na passarela: laranja, verde, turquesa, pink, ouro e bordô iluminam os modelos de cetim, estruturados em formas de elipses e cones. Outros delineiam o corpo, enriquecidos por broches e fivelas assinados por Carla Amorim. A noiva do final vem em tomara-que-caia com dobraduras que lembram o obi oriental. O véu se desmembra em duas faixas que saem das costas, bordado com pequenas flores em tons suaves.
Outro estilista a revisitar o trabalho dos arquitetos da moda dos anos 50 é Fause Haten, que apresentou suas duas linhas em um só desfile: a Der Haten, de prêt-à-porter, e a alta-costura, que leva o seu nome. ‘‘Tentei imaginar o que Dior e Balanciaga estariam fazendo hoje’’, disse o estilista.
Para a coleção ‘‘vida-real’’, ele propõe saias plissadas, pantalonas, saias de malha telada, casacos de lã desestruturados e regatas metalizadas sobre blusas transparentes. Praticamente todas as peças foram mostradas em sobreposição (saias usadas sobre calças). Tudo em tons escuros. Na hora de fantasiar, Fause cria corpetes com saias amplas, longas na parte de trás e curtíssimas na frente, de modo a deixar as cintas-ligas à mostra.
Traduzindo as principais tendências da temporada para uma linguagem mais comercial, Valdemar Iódice chama a sua opção de romantismo futurista. O império bizantino está representado nas estampas, que trazem arabescos, mosaicos e cruzes. O japonismo aparece diluído nos tecidos plissados e nos drapeados discretos. Entre as boas idéias, merece destaque a mistura de magenta com roxo terra, entre os cinzas e pretos dominantes.
O jeans vem acompanhado de jaquetas de couro preto. Calças têm modelagens variadas, de oversized à reta, incluindo as corsário, que ganham barras arregaçadas. Nos pés, botinhas de cano curto, bico fino e salto médio (em branco, preto, magenta, roxo) ou o hype do momento: sapatilhas.
O antenadíssimo Renato Loureiro, que na coleção passada já apostava na estrutura do japonismo, dá continuidade ao trabalho, propondo formas do quimono, alfaiataria com amarrações e tricôs tramados com tecidos - alguns vêm cortados no viés, criando um belo efeito. Os detalhes fazem a diferença: destaque para o viés que repuxa, transformando os cortes em elaboradas assimetrias.
Saias e vestidos em listras diagonais têm paetês em partes da padronagem. Brilho também na tela de linha bordada, que funciona como sobreposição em fundo preto liso. Como alternativa às sapatilhas, Renato sugere boots tipo Dr. Martens, desenvolvidos pela Samello.
Para as adeptas do terninho, as opções mais atraentes vêm da Cia de Linho, que foi a fundo no interesse das mulheres pelo guarda-roupa dos homens. Fez modelos de corte essencialmente masculino, incluindo peças como colete e gravata, e ressaltou a feminilidade vestindo assim mulheres lindíssimas, com bocas e unhas marcadas por um vermelho intenso. Misturou no casting impecável drag-queens e personagens da noite clubber paulistana: Grace Lesada apareceu em um terninho preto e Jonhy Luxo vestiu calça de daetê com blazer xadrez.
A marca investiu também nas saias plissadas e rodadas, com cintura marcada, que trouxeram os anos 50 mais uma vez à passarela. Os twin-sets em padronagem escocesa com brilho prometem ser hit.
Ignorando tendências, o jovem estilista Marcelo Sommer apresentou-se pela segunda vez no MorumbiFashion, imprimindo seu estilo despretensioso e cool. Fez um desfile alto-astral e especialmente emocionante para os que têm mais de 20 anos. Quem nessa faixa etária não usou ponchos de lã quentinhos no inverno? Sommer reedita esse clássico dos anos 70, assim como blusas de lã feitas à mão, além do tênis para a prática de cooper que a Adidas fazia na época, o SL 72, que será reeditado agora com materiais de tecnologia atual.
A coleção é inspirada nas paisagens rurais típicas, em colônias de férias, em regiões serranas, que estampam camisetas, saias e vestidos. Também estão presentes as saias bailarina em tule bordado, e twin-sets de lã com detalhes de paetê. A maquiagem completava o look ‘‘fadinha’’, com glitter azul, rosa, verde ou vermelho nos olhos e nos lábios inferiores.
Os homens usam calças em veludos cotelê ou em xadrez tipo toalha de piquenique, e não perdem a masculinidade quando aparecem em saias plissadas no melhor estilo escocês. Tudo muito kitsch, mas deliciosamente nostálgico e familiar, não só nas roupas, mas também na atmosfera do desfile. As almofadas colocadas na frente das primeiras filas para acomodar os amigos eram um convite do estilista, como se ele disesse: entre e sinta-se em casa. A platéia, encantada, agradeceu.

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