‘‘O que não queres que façam a ti, não faças aos outros’’. A frase, conhecida pelos homens dos quatro cantos do mundo, é um espécie de síntese da construção ética e moral da humanidade. Seu princípio perene traz em seu interior uma cintilante utopia.
Embora seu conteúdo seja profundamente atual, a frase foi cunhada há 2,5 mil anos. Seu autor, o pensador K’ung Fu’-tsu, nasceu na China em 551 a.C. Inspirado numa sociedade pautada pela harmonia entre homens e o universo, ele desenvolveu princípios filosóficos que se transformaria num dos pilares da cultura oriental.
O ocidente tomou contato com a filosofia de K’ung Fu’-tsu somente no século 15 da era cristã. Mesmo assim sob o nome de Confúcio. O nome K’ung Fu’-tsu foi ocidentalizado para Confúcio pelo padre italiano Matteo Ricci (1552 - 1610). Pertencente à Ordem dos Jesuítas, o religioso percorreu como missionário a Índia e a China – neste último país ele fundou uma missão. Dessa experiência, escreveu vários livros sobre a geografia e a história chinesas. Quando regressou à Europa, levou para o ocidente os ensinamentos de K’ung Fu’-tsu, latinizando o nome para Confucius, depois convertido em Confúcio.
Contemporâneo de Lao Tsé, Confúcio viveu numa época de profunda crise cultural e política, onde as injustiças haviam se tornado regras, não exceção. Seu trabalho foi defender o florescimento de uma ética humanista e uma fraternidade universal entre os indivíduos. Foi responsável por uma série de comentários sobre o I-Ching (o ‘‘Livro das Mutações’’) que, pela sua importância, passou a fazer parte do próprio livro. A síntese de seu pensamento está numa obra chamada ‘‘Os Analectos’’.
‘‘Os Analectos’’ está para a cultura chinesa assim como o Novo Testamento está para a cultura cristã. As semelhanças são inevitáveis. Assim como os Evangelhos constituem o testemunho da filosofia de Jesus, ‘‘Os Analectos’’ constituem o testemunho do pensamento de Confúcio. Assim como os Evangelhos não foram escritos de próprio punho por Jesus, Confúcio também não escreveu uma única linha de ‘‘Os Analectos’’. Ambas as obras foram compiladas, seguindo a tradição oral, por discípulos de várias gerações.
‘‘Os Analectos’’ é uma obra fragmentária composta por uma coletânea de aforismos, ditos célebres, trechos de conversas, perguntas realizadas por discípulos e frases sintéticas – tudo pautado por um conteúdo moral, ético e educacional. Recolhidos no território da memória, podem ser descritos como uma verdadeira colcha de retalhos costurada com a esperança da dignidade humana.
Para quem deseja conhecer a filosofia de Confúcio, a Editora Martins Fontes acaba de lançar uma bela versão de ‘‘Os Analectos’’. A edição preserva integralmente o texto original chinês, diferente de outras edições brasileiras que apresentam, de maneira geral, adaptações da milenar obra. Traz o trabalho de tradução de Simon Leys (pseudônimo do professor inglês Pierre Ryckmans, catedrático em cultura chinesa). E o melhor: vem acompanhada de notas elucidativas e comentários de cada item.
Acima de qualquer coisa, a filosofia de Confúcio defende uma organização social pautada pela harmonia entre os homens utilizando como instrumento básico a educação. A família seria a unidade fundamental de toda a estrutura social confuciana. Segundo o filósofo, os princípios éticos e morais aprendidos no seio familiar seriam naturalmente prolongados, em graus sucessivos, para a comunidade e para a nação. O respeito aos pais, ao lado do respeito às pessoas idosas, é um dos seus principais mandamentos.
Defensor de um reformulação ética e social, Confúcio fazia da ação política uma de suas bandeira. Para ele, a política era uma imediata extensão da ética – se todos os governantes fossem honestos nenhum outro membro da nação ousaria ser desonesto. Afirmava que um ‘‘governo é feito de homens, não de leis’’, isso porque as leis, num sentido repressivo, induziriam as pessoas a serem desonestas. A quantidade de leis que um país produzisse deixaria transparecer seu caos social e político. Em outras palavras, acreditava que a justiça não poderia ser construída apenas através de leis, mas por convenções morais e éticas (ritos no sentido literal) que eliminariam a própria necessidade de leis.
No prefácio da versão de ‘‘Os Analectos’’ publicada pela Martins Fontes, Simon Leys esclarece que a obra de Confúcio é fruto de sua inabalável crença de que possuía uma missão celestial, um plano político para seu povo: ‘‘Ele se preparava constantemente para isso e, na verdade, o recrutamento e treinamento de seus discípulos eram partes de seu plano político. Passou virtualmente toda a vida vagando de estado em estado, na esperança de encontrar um dirigente esclarecido que ao menos lhe desse uma oportunidade e o contratasse junto com sua equipe – que lhe confiasse um território, por menor que fosse, onde ele pudesse estabelecer um governo-modelo. Todos os seus esforços foram em vão. O problema não era ele ser politicamente ineficaz ou inviável – ao contrário. A elite de seus discípulos tinha competência e talentos superiores e formava em torno dele uma espécie de gabinete virtual: havia um especialista em assuntos estrangeiros e diplomacia, havia especialistas em finanças, administração e defesa. Com tal equipe, - Confúcio apresentava um tremendo desafio às autoridades estabelecidas.’’
O resultado desse anseio de colocar em prática sua utopia, levava Confúcio ser hostilizado pela maioria dos governantes dos lugares por onde passava. Nos poucos empregos que conseguiu foi demitido ou expulso – em alguns casos até ameaçado de morte.
Há dezenas de histórias sobre seus ensinamentos, uma delas conta que um de seus discípulos o indagou sobre o que faria primeiro se um rei lhe confiasse um território para governar. Sua resposta causou indignação: ‘‘Minha primeira tarefa certamente seria retificar os nomes’’. Depois completou: ‘‘Se os nomes não são corretos, se não correspondem à realidade, a linguagem não tem sentido. Se a linguagem não tem sentido, a ação torna-se impossível – e, consequentemente, todos os assuntos humanos se desintegram e torna-se impossível e inútil seu manejo’’. Ou seja, ele via falsidade e desonestidade até mesmo no trato das pessoas com as palavras, especialmente da parte dos governantes.
Pouco antes de morrer, em 479 a.C., aos 72 anos de idade, diz a lenda que K’ung Fu’-tsu anunciou que não faria mais o uso da fala, da palavra. Um de seus discípulos então disse: ‘‘Mas, mestre, se não falardes, de que maneira seres pequenos como nós ainda poderão legar algum ensinamento?’’ Ele apenas respondeu: ‘‘O Céu fala? E mesmo assim as quatro estações seguem seu curso e centenas de criaturas continuam a nascer. O Céu fala?’’.
Para ele, a verdade não deveria exigir muitas palavras para ser pronunciada, ou seja, ‘‘quando um pássaro está prestes a morrer, seu canto é triste; quando um homem está prestes a morrer, suas palavras são verdadeira.’’
•‘‘Os Analectos’’ de Confúcio, Editora Martins Fontes, tradução do chinês para o inglês, apresentação e notas de Simon Leys, tradução brasileira de Claudia Berliner, 258, R$ 29,00.

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