A metamorfose das mazelas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de setembro de 2016
Marcos Roman<br>Reportagem Local 

Com diversas premiações na bagagem, incluindo três categorias do Prêmio Shell, a peça "Caranguejo Overdrive" chega ao 48º Festival Internacional de Londrina (Filo) como uma das atrações mais aguardadas do evento. Encenado pela troupe carioca Aquela Companhia de Teatro, o espetáculo tem três sessões: hoje às 20h30, e amanhã, às 18h30 e 21h30, na Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL.
"Caranguejo Overdrive" conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos no mangue carioca da metade do século XIX. Convocado para integrar as forças brasileiras na Guerra do Paraguai, o personagem enlouquece no campo de batalha. De volta à cidade onde nasceu, encontra um Rio de Janeiro em convulsões urbanísticas uma cidade, para ele, irreconhecível e com sabor de exílio.
Em seu retorno, o ex-combatente procura o mangue a parte da cidade então chamada Rocio Pequeno, onde hoje está localizada a Praça 11, e se emprega na construção do canal que representou a primeira grande obra de saneamento do Rio. Mais uma vez é presa de uma crise abandona tudo, vaga pela noite, mergulha no delírio. Apanhado por uma tempestade dessas tão conhecidas dos cariocas, ele se torna enfim um caranguejo.
Em entrevista à Folha por telefone, o diretor Marco André Nunes, autor do texto, destaca o tom crítico abordado na obra. "A história tem um contexto histórico e se passa nos anos 1870. A realidade retratada após muitas pesquisas feitas sobre aquela época mostra que o País ainda não conseguiu superar a maioria de suas mazelas. No palco, falamos sobre questões que os brasileiros enfrentam há séculos, como a exploração do homem pelo homem. O trabalhador que luta pela sobrevivência para fornecer alimento para outro homem. Famílias que são retiradas de suas casas pelo poder público para dar espaço para obras inacabáveis. E até mesmo os problemas de saneamento urbano que nunca foram resolvidos. Infelizmente essas questões permanecem muito atuais", argumenta.
A proximidade com a realidade vivida por milhões de pessoas é responsável pelo forte impacto que a peça tem causado no público desde a sua estreia, no ano passado. "O texto é muito potente e as reações da plateia são muito parecidas dentro e fora do País", enfatiza Nunes. O espetáculo também tem sido aclamado pela crítica especializada, sendo contemplado com diversas premiações. Entre elas o Prêmio Shell (Pedro Kosovski/melhor autor, Marco André Nunes/melhor diretor e Carolina Virguez/ melhor atriz), além do Cesgranrio e Associação dos Produtores de Teatro (APTR).
Duas referências se impõem na proposta de "Caranguejo Overdrive" a primeira, a do Manguebeat de Chico Science, uma fusão de música eletrônica e tambores de maracatu. A música em cena compõe a performance, com o instrumentista pernambucano Felipe Storino (guitarra e direção musical) à frente. São todas canções/trilhas originais, dialogando com a performance dos atores. A segunda referência é ao trabalho do geógrafo pernambucano Josué de Castro e seu clássico "Geografia da Fome", em sua dura poética.
Após percorrer as principais cidades brasileiras, a peça chega a Londrina após uma passagem pela Colômbia. "Se não me engano, O Filo e o Festival de Teatro de Manizales, do qual acabamos de participar, são os dois festivais mais antigos da América do Sul. Sempre tivemos muita vontade de participar do Filo e estamos com uma expectativas para estas apresentações que faremos em Londrina", conclui o diretor.
Serviço:
"Caranguejo Overdrive"
Quando Hoje (20h30) e amanhã (18h30 e 21h30)
Onde Divisão de Artes Cênicas da UEL (Av. Celso Garcia Cid, 205)
Quanto R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Ponto de vendas - Royal Plaza Shopping (Rua Mato Grosso, 310) e pela internet www.filo.art.br e www.diskingressos.com.br.


