A história de duas mulheres expulsas de um povoado por sua suposta loucura é a base da reflexão de um dos espetáculos desta noite na Sul Mostra Teatro, do Festival Internacional de Londrina (Filo). Inspirado no conto ‘‘Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha’’, do mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), o Núcleo Depois da Chuva, da Universidade de Passo Fundo (RS), criou a montagem ‘‘Intolerância’’, espetáculo que aborda a capacidade – ou incapacidade – do ser humano em lidar com a questão das diferenças.
Se o texto de Guimarães Rosa narra o momento em que avó e neta deixam um povoado mineiro e partem para uma viagem de trem rumo ao hospício, em ‘‘Intolerância’’ o destino das ‘‘doidas’’ é contado por quatro cegos que permaneceram no povoado e relatam o que aconteceu à população após o banimento das mulheres.
O ator Márcio Bernardes antecipa que a montagem gaúcha parte do conto para abordar de forma metafórica e alegórica a questão das diferenças. O espetáculo utiliza-se de personagens e situações de exclusão que marcam o texto de Guimarães Rosa.
Em seu segundo trabalho, o Núcleo Depois da Chuva convidou para atuar na direção Mário Santana, doutorando em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo. O grupo gaúcho não o requisitou por acaso. Há 14 anos Santana faz uma pesquisa de transposição de obras de Guimarães Rosa para o palco. Já fez quatro montagens baseadas no autor e esta é a segunda que envolve o conto ‘‘Sorôco...’’.
Atuando há quatro anos como um núcleo experimental de pesquisa calcado no trabalho do ator, o Depois da Chuva busca seus fundamentos teóricos em Stanislavski, Meierhold, Grotowski e Eugenio Barba. ‘‘Intolerância’’ foi montado em quatro meses de pesquisa experimental e estreou em março do ano passado.
A concepção de Mário Santana buscou justamente fazer a transposição para a linguagem teatral do tipo de poética de escrita literária que marcou a obra de Guimarães Rosa. ‘‘Construo a cena com a preocupação de transcender o discurso objetivo da vida cotidiana, a partir de uma estilização explícita dos arquétipos relacionados às relações do homem do século 20’’, comenta. Ele assinala que o espetáculo assume o aspecto lúdico ligado ao exercício da narratividade de Guimarães Rosa, criando metáforas visuais que possam remeter o espectador a uma compreensão ao nível das sensações e não da racionalidade.
Para trabalhar a proposta, o Núcleo firmou-se na linguagem conotativa. ‘‘É um tipo de estrutura de texto com adaptação oral extremamente marcada pela poesia’’, pontua Santana. O fato do texto de Rosa ter uma ambientação nas Minas Gerais não seduziu o grupo de Passo Fundo a transportá-la para um cenário regionalista gaúcho. Pelo contrário. ‘‘Buscamos universalizar metaforicamente a situação de exclusão para falar da cegueira do homem na sua impossibilidade de aceitar a diferença do outro’’, afirma o diretor.
‘‘Com isso, penso em todas as manifestações do final do século que mancham a civilização global como, por exemplo, o preconceito econômico dos países ricos com os pobres. ‘‘Mas não penso só no macro. O sul do Brasil ainda tem resquícios do pensamento nazista; índios são queimados vivos por jovens da classe média, homossexuais são exterminados. É tipo o imaginário que reproduz nas nossas relações cotidianas’’.
‘‘Intolerância’’ não apresenta traços realistas em nenhum aspecto cênico, seja na linguagem, na interpretação, na sonoridade ou na iluminação. A trilha sonora, de acordo com Santana, é fruto de uma pesquisa de músicas camponesas – relacionadas a trabalho e religião – de Portugal dos séculos 17 e 18. Para o espetáculo, as canções foram adaptadas e são executadas ao vivo ao som de uma sanfona.
O figurino surgiu de uma pesquisa da indumentária medieval. ‘‘Criamos algo estilizado para atores que usam lentes de contato brancas e carregam um globo com fogo. Usamos como metáfora da existência do homem um globo de ferro de seis metros de diâmetro por três de altura para representar o ambiente em que essa comunidade vive. Não trabalhamos com reproduções do real’’, conclui.
‘‘Intolerância’’, com o Núcleo Depois da Chuva, da Universidade de Passo Fundo (RS). Direção: Mário Santana. Duração: 55 minutos.

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