Você gostaria de participar de uma experiência artística? Você gostaria de ficar um mês com uma obra de arte em sua casa? Com esta proposta, a imagem de um objeto parecido com uma pia de louça, dessas usadas em banheiro, de formato octogonal, tem sido veiculada por alguns lugares, desde meados dos anos 90, podendo ser adotada por quem quiser, desde que não seja apenas como objeto puramente decorativo, mas como elemento que possa se desdobrar em outras criações a partir dos estímulos - visuais, táteis, reais ou virtuais - que a peça possa oferecer. Seu formato lembra aqueles desenhos que representam bactérias, vírus, e, de fato, possui – para seu autor, o artista Ricardo Basbaum – essa conotação ‘‘virótica’’, que ele desenvolve como ‘‘estratégia de contaminação’’ em um projeto denominado NBP – Novas Bases para a Personalidade.
Aos 40 anos, Basbaum, além de artista, é escritor de textos de arte, sobre arte e sobre artistas. Seu livro ‘‘Arte Contemporânea Brasileira’’ acaba de ser lançado. É também curador para exposições no Brasil e no exterior, trabalhando em eventos como a mostra Panorama 2001, para o MAM-SP e Mistura + Confronto, a se realizar em setembro em Portugal. Mais, é co-diretor do espaço Agora-Capacete – um lugar para eventos e exposições de arte, além de ser um prédio com vários ateliês de artistas – agraciado este ano com a aprovação de um projeto pela Petrobras. E mais ainda: editou a revista de arte e cultura Ítem (atualmente desativada), participa do grupo Magnet, de artistas internacionais, é professor de arte na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e está, atualmente, com duas exposições em cartaz – uma no Rio e outra em São Paulo, na galeria São Paulo. ‘‘Esse acúmulo eu não considero normal’’, diz.
No Rio, no piso superior de uma galeria comercial dominada por lojas de antiguidades protegidas por grades de ferro, uma das lojas parece querer insistir na repetição das formas, que se prolongam através do reflexo da cortina de vidro que separa a instalação do artista Ricardo Basbaum do resto das lojas da galeria, do resto da cidade. Monitorados por câmeras de vídeo, o espaço agora se oferece como um labirinto. Para falar desta obra e conversar sobre outros assuntos, o artista se encontrou com a reportagem da Folha2 no Escritório de Arte Artur Fidalgo. A seguir, leia trechos da entrevista.
Seu trabalho na galeria provoca uma atitude do espectador frente aos vários planos, grades, frestas, vãos, passagens. Corpo, pensamentos, palavras, desvios, superposições, hesitações são possibilidades que a obra oferece como idéia de transformação. Além disto, essas grades lembram um sistema de segurança, a câmera tem um sistema de vigilância e também tem um diagrama ali. O você quer com esta ambientação?
Bem, esta relação com muro, grade, vigilância é imediata, mas ao mesmo tempo cria também um playground. Quer dizer, tem a grade que separa, que cerca, mas ao mesmo tempo tem um recorte que se abre para você atravessar. Essa câmera é uma câmera de vigilância e monitoramento mas, ao mesmo tempo, de fruição também, não tem ninguém vigiando ninguém. Quem é monitorado, aqui, pode monitorar também. A imagem está disponível para quem quiser ver. Tem reversibilidade. Qualquer meio de comunicação – telefone, televisão, etc, – está sempre mudando nossa sensorialidade. Aquele isolamento íntimo com a obra de arte, de alguma forma, está violado.

Isso é interessante... Talvez seja uma coisa de persuasão. Uma certa retórica de envolvimento. Tentar seduzir, capturar, envolver. Seria um modo de romper com um certo dogmatismo.
Ou seja, para que o trabalho plástico não se torne mero objeto ilustrativo, nem literal. Essa é a idéia?
Quando se trabalha com a palavra corre-se esses riscos. Ela possui uma longa tradição de ser o dado dominante contra os sentidos, contra o sensorial. A palavra tem uma autoridade muito grande. É sempre a palavra, o contrato, o recibo. Sempre é bom fugir deste perigo. No meu caso, quero trabalhar esta passagem do texto para o trabalho plástico. Sempre quis fugir deste perigo da palavra amarrar tudo e não precisar do trabalho, da outra pessoa. E deixar uma certa abertura, a palavra não dá conta de tudo, ela é bem limitada. Pode avançar em certos espaços e em outros ela não dá conta e é aí que o trabalho faz seu papel também.
E o uso diagramas indicando roteiros? Eles seriam um meio termo entre a escrita e o desenho?
Sim. Eles se tornam um elemento sensorial também. Não é só o elemento jurídico, documental e legislador. O diagrama é a busca de um lugar. Seria um meio termo que tem uma certa funcionalidade, tem uma autoridade como diagrama. Mas não é o diagrama de uma teoria, como se já tivesse uma teoria pronta.
Mas essa é a linguagem do diagrama. Para você ele também é superfície, faz parte do jogo plástico?
Ele é palavra e imagem. Faz parte da tradição do Ocidente. Você abre um livro de psicologia e lá tem diagramas maravilhosos. E se você esquece o texto que está por trás, vê desenhos incríveis. Mas são desenhos que remetem a um certo argumento, uma certa estrutura. Eu conduzo isto quase como um roteiro de um filme, um romance. É uma trama, uma tentativa de chegar naquele ponto potencial da narrativa, do argumento, do jogo, do debate entre a obra e o espectador.
Neste debate, como você encara as questões da indústria cultural e da sociedade de consumo?
Me interessa incorporar uma questão do universo comunicativo, pop. Uma preocupação com o corpo, com o espectador e com a performance. Os artistas devem encarar isto de frente. Não adianta ficar no saudosismo aristocrático de um salão burguês em que a cultura não é corrompida pela indústria cultural, pelo grande público.
Você escreveu no texto ‘‘Migração da Palavra para a Imagem’’ (revista Gávea, 13, 1995) sobre o trabalho de Hélio Oiticica, em que ele opera plasticamente tirando a cor da superfície da parede e acaba levando-a para o corpo. Bem, você pega a palavra e a tira de sua literalidade impressa, ou explicativa e traz ela para um jogo de sensações que procura se relacionar com o corpo do espectador. Como se dá esta transferência?
Concordo com a comparação. Hélio Oiticica é uma influência assumidamente presente. Uma das influências é essa idéia de transformação, de envolvimento corporal. Mas tem uma diferença muito grande que é uma certa pureza que ele e outros de sua geração tinham de acreditar em uma positividade de transformação. De que essa impregnação sensorial seria, necessariamente, causadora de um caminho utópico, libertador, revolucionário. Mas só o envolvimento sensorial não é garantia de nada. Quer dizer, o que a gente mais vê por aí hoje, são estratégias capitalistas de hipnotismo sensorial, como uma espécie de satisfação garantida ou seu dinheiro de volta, uma espécie de parque de diversões contínuo, que nunca termina, a máquina capitalista funciona disto.
E como isto funciona no caso do seu trabalho?
No caso do meu trabalho, procuro tirar partido deste jogo, deste playground, deste envolvimento sensorial, mas aproveitando este momento de embriagamento, vamos dizer assim, para provocar, sacudir o espectador. O futuro não é uma história tão em aberto. A existência de um universo de comunicação é o que eu tento incorporar como estratégia de trabalho. Continuo insistindo na repetição de uma marca que é um signo compacto, uma espécie de elemento virótico, de contaminação (a forma octogonal). Tem ali uma certa idéia de contaminação, de agressividade, de violência, de modo subliminar, incorporando essas trocas tecnológicas, etc. e tal. Quer dizer, a este tipo de questão o Hélio Oiticica não estava ligado.
E a ligação da sigla NBP (Novas Bases para a Personalidade) com o resto do seu trabalho, ela continua?
A sigla é uma marca. Ela continua nas formas das portas. O desenho do diagrama contém aquele desenho virótico. Mas eu fico tentando flagrar as continuações disto, porque tem um outro trabalho dentro desta série que é aquele com o objeto que as pessoas recebem e levam para a casa. Este é um projeto em andamento, em circulação. A sigla e a marca servem para uma apropriação fácil, já que é um trabalho que as pessoas usam. Eu tenho fotografias, vídeos, desde 94, e me mandam o material documental. Já o objeto que as pessoas levam para casa tem a forma da marca. É branquinho, de bordas azuis, esmaltado, como uma louça, um utensílio doméstico – ele provoca um certo distúrbio nos ambientes, é meio um trambolho.
Como têm sido as respostas em relação a este objeto?
Uma das respostas foi de uma dupla de irmãos do Espírito Santo que me mandou um vídeo sem o objeto. Eles se apropriaram da forma do objeto para contar a história de uma pessoa que está em um bar, na beira da praia, a gente nunca vê a cabeça desta pessoa que diz ‘‘não sei o que aconteceu, veio uma luz, caiu do céu’’. Depois desta cena, a pessoa aparece na cozinha lavando a mão e o sabão tem a forma virótica da marca NBP. Ela tira uma garrafa da geladeira, tira a tampinha, a tampinha tem o desenho lá dentro, o rótulo da garrafa também. Chega o filho dela, tem uma marca tatuada no corpo. O canteiro no jardim também tem, uma planta cresceu com as folhas assim. Tem essa coisa da apropriação fácil da marca. Mas eu acredito que também tem uma história da marca nas minhas apropriações. Eu vou mudando a cada trabalho que realizo.
Tem uma metáfora nisso?
Só uma metáfora virótica. É um vírus. Parece que desmaterializa e vai circulando pelo seu corpo. Ser contaminado pelo trabalho significa isso. É uma metáfora dos anos 80. Contaminação não só da doença, mas das transmissões subliminares, desse hipnotismo da comunicação. Ao mesmo tem isso tem a pretensão de ser, como um signo, essa partícula que é visual e verbal. Isso é um signo dessa comunicação. NBP é igual a isso. Isso é igual a NBP.
Explique a sigla NBP?
Significa Novas Bases para a Personalidade. Surgiu com a idéia de transformar o espectador. Novo é uma idéia moderna, Base também, personalidade já é mais pós-moderna. O que interessa é que funcione como uma logomarca. Tem essa função comunicativa de remeter a uma entidade, a uma instituição, mas eu nunca quis dar um tom para isso de corporativo, de fazer uma empresa NBP Corporation, porque tem muitos artistas dos anos 80 que trabalham nessas linha. Fazem uma marca e criam uma empresa falsa, qualquer coisa falsa.
Mas só uma logomarca é algo inexpressivo.
Joga na situação do coletivo, agora, realmente, não é expressivo. Mas eu não quero que seja simplesmente um símbolo, com cargas milenares, isto não me interessa. Eu sempre quis trazer esta história de marca para uma história bem concreta, para me ver livre destas cargas simbólicas, que não me interessam tanto.

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