O último dia 27 foi um março na história do Teatro José Maria Santos: a data marcou dez anos de funcionamento ininterrupto do teatro. A celebração do funcionamento sem paralização ganha importância entre profissionais e público não somente porque atualmente o teatro abriga espetáculos de primeira grandeza mas também porque a transformação de uma fábrica de malhas em um espaço cultural aconteceu com muita luta e sofrimento.
O número 655 da Rua 13 de Maio, em Curitiba, abrigava a fábrica de malhas e confecções da família Hoffmann, ainda no final do século XIX. O local serviu como importante referência industrial na cidade até a chegada dos anos 80, quando a crise na economia e um incêndio no prédio condenaram o imóvel. Pouco tempo depois, após reconstrução, o endereço sediou a Fábrica do Samba, onde a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) concentrava as ações do Carnaval.
Foi justamente nesse período que um ator em ascensão, preocupado em ter um espaço para a classe teatral paranaense, deu de cara com o prédio. Ele estava procurando um local onde pudesse reunir profissionais e público, independente de órgãos ou entidade oficiais. Convencido que tinha encontrado o lugar ideal, José Maria Santos conseguiu ajuda da família, recursos da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Paraná (APETEP), do Serviço Nacional de Teatro, da Secretaria de Estado da Cultura e da FCC para reinaugurar o prédio, em 82, com a comédia ''A Reputação de Quatro Bicos'', de Luís Groff. Junto dele nessa empreitada, o amigo de longa data Ireney Adami.
De 83 a 86, o Teatro da Classe, como ficou conhecido, passou por altos e baixos, devido à falta de público e recursos, ao aumento do aluguel do local, à qualidade questionável de alguns espetáculos e até mesmo devido a uma ausência temporária do ator José Maria Santos no teatro curitibano.
Esse foi o período mais difícil do teatro, ameaçado pelos compradores do prédio, que chegaram a iniciar a demolição das paredes externas. A destruição completa foi impedida devido à intervenção da classe teatral e até da polícia. ''O Teatro da Classe é que abraçou o Teatro José Maria Santos. Tínhamos problemas judiciais com os vizinhos, o espaço estava caindo e aí o Estado ajudou, tombou o prédio'', lembra Gilberto Tuyuty, Diretor de Produção e Técnico de Artes Cênicas, 50 anos, administrador do Teatro José Maria Santos desde a reinauguração.
Depois do episódio de 87, o teatro ganhou um projeto que foi levado ao governo, em 89. As obras chegaram a ter início, entretanto, ficaram abandonadas durante cinco anos. Somente após o falecimento de José Maria Santos, em 90, é que houve mobilização para transformar o espaço.
Oito anos depois, o Teatro José Maria Santos passou a fazer parte definitiva do cenário cultural paranaense e do Centro Cultural Teatro Guaíra. O reinício foi difícil. ''Aqui não tinha nada, quando cheguei só tinha as paredes e poeira. Mas cada um foi ajudando um pouquinho e a gente foi montando o teatro'', diz Tuyuty.
Depois da reinauguração, o espaço foi ''abraçado'' de vez pela classe teatral e pelo público, que transformaram o local em um dos lugares mais aconchegantes para a arte em Curitiba. ''O diferencial daqui é fazer você se sentir como se estivesse em casa. A equipe toda gosta do que faz. O palco e a platéia ficam tecnicamente muito próximos e isso ajuda a deixar a coisa toda mais lúdica, a arte mais interativa'', destaca o administrador.
Inicialmente, o Teatro José Maria Santos recebia em média 100 espetáculos por ano, e hoje conta com 230 a 240 por temporada. ''Nesses dez anos recebemos mais de 40 mil pessoas, somos formadores de platéias, tivemos mais de 2 mil produções e incontáveis apresentações'', contabiliza Tuyuty.
O que ajudou o teatro a se tornar referência foi o conceito de espetáculo de baixo custo, além da boa localização. ''O José Maria Santos é voltado única e exclusivamente para o teatro paranaense. A vantagem é que damos todas as condições técnicas para as produções e é barato fazer uma peça aqui, o custo de locação chega a ter 300% de diferença em relação a outros lugares'', nota Tuyuty. ''Por isso nós conseguimos ter um ingresso mais barato também'', complementa.
Além das peças, Tuyuty afirma que o teatro serve como importante ponto de fomentação cultural. ''A gente deixa o teatro à disposição para testes de banca de ator e atriz, para o pessoal obter o registro profissional. Também deixamos o pessoal da FAP (Faculdade de Artes do Paraná) e de grupos de dança realizarem provas públicas aqui''.
''O teatro é a 'menina dos olhos' da classe artística daqui. Tem a localização, na 'broadway curitibana'; aqui é bom de trabalhar, com uma equipe muito legal; e as facilidades técnicas. É por isso que o pessoal gosta tanto'', explica Tuyuty.

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