A memória viva de um certo Mário
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segunda-feira, 23 de setembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Mário de Andrade, o modernista de primeira hora, é um escritor sem biógrafos. Ninguém, pelo menos até agora, ousou devassar a vida do autor de ''Macunaíma''. O rumoroso rompimento com Oswald de Andrade, a temporada amargurada no Rio de Janeiro e a suposta homossexualidade estão entre os temas que mais atiçam a imaginação dos curiosos desde sua morte em 1945.
Suspeita-se que uma cortina de silêncio paire entre parentes, amigos e admiradores impedindo qualquer tentativa de desvendar seus passos. Mas isso não passaria de especulação. ''O Mário está nas cartas. Estudem suas correspondências, está tudo lá'' diz José Bento Faria Ferraz, ex-aluno e ex-secretário particular do escritor.
Mário de Andrade foi um autor obsessivo de cartas. Legou para a posteridade o que o crítico e ensaísta Antonio Candido classificou certa vez de ''o maior monumento do gênero em língua portuguesa''. Muitas das confidências epistolares chegaram ao público esparsamente nas últimas décadas trazendo os diálogos do escritor com colegas de ofício como Manuel Bandeira, Pedro Nava, Fernando Sabino e Álvaro Lins.
José Bento recebeu um grupo de londrinenses em sua casa, no bairro de Cerqueira César, em São Paulo, no último final de semana. Falou durante duas horas, mostrou sua biblioteca e se empolgou quando foi convidado para visitar a antiga casa de Mário de Andrade, hoje transformada na Casa Mário de Andrade / Oficina da Palavra. ''A última vez que fui lá já vai fazer uns quinze anos'' lembrou.
Agora, ao voltar, encontrou o local fechado e um segurança informando que o atendimento ao público só era permitido de segunda a sexta-feira. ''Você conhece o Mário de Andrade? Ele ainda está vivo?'' perguntou ironicamente ao guarda. José Bento foi o escolhido pelos londrinenses para protagonizar um documentário sobre Mário de Andrade, inaugurando uma série de projetos que virão à tona até outubro do próximo ano, quando serão comemorados os 110 anos de nascimento do escritor.
Entre os planos da turma, está a realização de um ciclo de palestras com a presença de Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza, dois luminares da Academia. Está prevista também uma exposição de artes plásticas, na qual as obras serão inspiradas na figura do guru modernista. A Secretaria Municipal de Cultura está apoiando a iniciativa.
O grupo de londrinenses foi reunido pelo professor Carlos Okawati, um entusiasta da obra de Mário de Andrade, que não titubeou em emprestar o nome do mestre para o sebo de sua propriedade. Fazem parte da equipe de produção o artista plástico Paulo Menten, a docente do Departamento de Ciências Sociais da UEL Raimunda de Brito Batista e os jornalistas Emerson Dias, Claudio Yuge, Luciano Paschoal, Rodrigo Grota, Paulo Briguet e Adriana Yumi. Durante o bate-papo informal, José Bento não fez revelações bombásticas, escapando de questões mais controversas.
Ele trabalhou para Mário de 1934 a 1945. Era o organizador da vasta biblioteca do escritor, que reunia 17 mil volumes, com primazia para títulos de música, arte, literatura, etnologia e folclore. Chegava de manhã e ficava até meio-dia, quando almoçava e em seguida corria para o outro emprego na Biblioteca do Sindicato dos Bancários. ''Naquele tempo, Mário se barbeava declamando poemas de Gonçalves Dias, Castro Alves e 'O Corvo', de Edgar Allan Poe'' conta.
Mário era professor de História e Estética no Conservatório Dramático e Musical. Bento era um de seus alunos. ''As meninas eram maioria no Conservatório'' lembra. ''Havia umas 800 em comparação com uns 100 rapazes. Um dia, o Mário me disse para não correr atrás das meninas que ele queria conversar comigo. Falou do casamento de sua irmã, Lurdes, e que precisaria de alguém para cuidar de suas coisas. Perguntou se eu tinha jantado, eu disse que sim, embora estivesse morrendo de fome. Aí ele me fez a proposta para ser seu secretário. Eu fiquei emocionado e tive uma incontinência urinária. Três meses depois passei a trabalhar para ele''.
A vida amorosa de Mário também veio à tona durante a conversa. Tabu dos tabus, a questão de sua sexualidade foi evitada. ''Um amor oculto parece se revelar em suas cartas para Henriqueta de Lisboa. Dizem que ele foi apaixonado também por Carolina Penteado da Silva Telles, a filha de Olívia. Mas não sei, ele era muito discreto em sua vida pessoal'' ressaltou.
A suposta homossexualidade permanece um mistério, assim como o motivo do racha com Oswald de Andrade, em 1929. ''Dizem que, por uma bobagem de Oswald, ele se separaram'' explicou. ''Mas Oswald era admirador de Mário. Sei o que me contam, e pelo que falaram ele ficou abalado e chorou muito ao saber da morte de Mário através do jornal durante uma viagem de trem a Araraquara''.
Eventualmente convocado para falar sobre o ilustre ''patrão'', José Bento já deu depoimentos em documentário, mesa-redonda e reportagens. Costuma ainda escrever artigos para a revista quadrimestral ''Meya Ponte'', de Pirenópolis (GO). ''Uma das heranças que recebi de Mário é o amor pelo conhecimento e pelas artes populares, particularmente os ex-votos, as imagens criadas pelo povo para cumprir promessas'' diz.
Fascinado pelo folclore do nordeste, Mário de Andrade fez duas viagens à região distanciando-se cada vez mais das influências estéticas cosmopolitas que nortearam os versos abusados de ''Paulicéia Desvairada'', o primeiro livro modernista. Mais tarde, revisando criticamente a Semana de 22, afirmou que seus protagositas eram ''nitidamente aristocráticos''.
Durante toda a década de 30, exaltou o folclore como base para a construção de uma cultura nacional. A essa altura, já tinha deixado para trás a figura de iconoclasta avesso aos parnasianismos de salão para ganhar estatuto de intelectual múltiplo e rigoroso que estendia sua influência a todos os domínios da cultura.
''O Mário é um universo'' salientou o ex-secretário. ''Tinha conhecimentos de filosofia, psicologia, sociologia e antropologia. Conhecia nossa formação histórica, sabia de nossas qualidades e misérias. É um homem do quatrocento italiano, aquele quatrocento que inaugurou a Renascença para o homem do Ocidente. Eu precisava de mais 200 anos para conhecer toda a profundidade de sua obra''.
José Bento completa 90 anos no próximo mês. É um dos convidados para participar, em 2003, do ciclo de palestras em homenagem a seu mestre.


