A primeira coisa notável sobre ''Amnésia'' (veja a programação de cinema na página 3) é sua estrutura fraturada e submersa no tempo. E o efeito imediato - e talvez o mais impressionante no filme - é que força o espectador a pensar durante todo o restante da projeção , mais do que em qualquer outro recente desde ''Os 12 Macacos'', ou ''Os Suspeitos''. Rotular ''Memento'' como thriller intrincado resulta em empobrecimento. O film noir nunca foi tão labiríntico.
Leonard Shelby (Guy Pearce) é um homem sem memória para fatos recentes, que ele esquece em seguida. A espécie rara de amnésia foi adquirida quando um agressor golpeou sua cabeça, na mesma noite em que a mulher foi estuprada e morta. Agora ele caça o assassino, mas tudo é muito difícil. Como não se lembra de nomes, datas, lugares, fatos e rostos, Leonard se vale de uma Polaroid e faz tatuagens em si mesmo com ''mementos'' da busca. Ele gosta da pessoa? Ele pode confiar nela? Seria ela o assassino? Ele não tem nenhum outro dado, a não ser suas anotações.
Uma preocupação que o público não precisa é criar empatia com o personagem. Em seu segundo filme, o diretor-roteirista inglês Christopher Nolan, 30 anos, coloca o espectador na pele de Leonard. A vingança do início é o fim da história, e da mesma forma que uma pessoa com o mesmo tipo de perda de memória, somente de acontecimentos recentes, você nunca sabe o que ocorreu antes da cena que está vendo. É como acompanhar a história na ordem inversa. Numa cena Leonard é visto obtendo informações de uma pessoa que o conhece - alguém bom ou alguém perverso. Na cena seguinte há um encontro prévio entre os dois que pode esclarecer mais a relação entre ambos. Mais tarde você vê como se encontraram. Mas então você se pergunta: é esta a história, é assim que o filme se desenrola? É preciso paciência e participação, e nada será esclarecido inteiramente até o final. É caminhando às avessas, de trás para diante, que o espectador, como Leonard, desconhece tudo o que veio antes.
A teoria de Nolan: nossas memórias não são confiáveis. São apenas recordações, lembranças. Akira Kurosawa trabalhou com esta mesma noção em ''Rashomon'', o clássico exame de realidades cambiantes. O francês Alain Resnais mergulhou nos escaninhos da memória na procura de significados existenciais. No filme, é claro, o motivo é o verdadeiro mistério.(C.E.L.J.)

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