Marcos Losnak
Especial para a Folha2
‘‘Tudo o que é vivo está ameaçado, fundamentalmente pelo homem, e o homem por sua vez é o ser vivo mais ameaçado pelo homem.’’ Esse argumento é o grande hino de um sujeito chamado Albert DeSalvo, esquizofrênico inconfesso e assassino confesso de 37 pessoas, entre elas a mãe, o pai, a esposa, os filhos, os professores, o patrão e alguns vizinhos.
A história de Albert DeSalvo – mais conhecido como ‘‘Estrangulador de Boston’’ – está em ‘‘O Estrangulador’’, novo romance do escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán lançado pela Editora Companhia das Letras. A história é narrada pelo próprio DeSalvo, preso numa cela do setor hospitalar da Penitenciária de Boston onde cumpre prisão perpétua. O relato é uma espécie de diário de cela em que o assassino recorda o passado e reflete sobre o presente, em especial seu tratamento psiquiátrico.
Embora se autodenomine ‘‘o grande e original Estrangulador de Boston’’, Albert DeSalvo matou apenas três de suas 37 vítimas por estrangulamento. Na realidade não simplesmente mata suas vítimas, mas confere uma verdadeira linguagem estética para cada assassinato, o que ele chama de ‘‘crime artístico’’. Para assassinar seu professor de latim apaixonado por Art Deco, por exemplo, crava o pescoço do velho homem numa grade de lanças, autêntica obra representante da Art Deco. Para assassinar uma ex-contorcionista apaixonada por geladeiras utiliza o próprios desejos da vítima: um belo dia, num acesso de libido, a mulher retira tudo da geladeira, entra dentro com seus poderes de ex-contorcionista e pede para que DeSalvo feche a porta por alguns minutos para que ela fique gelada para fazerem sexo. O estrangulador não perde a oportunidade, tranca a porta por algumas horas. Depois retira o corpo congelado e termina o serviço.
A grande paixão do ‘‘Estrangulador de Boston’’ é uma vizinha chamada Alma. Sua obsessão está na beleza de um dos seios da moça, uma perfeição ele compara aos seios criados pelo pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1819) em seus quadros. Reproduções das mulheres fatais pintadas por Klimt cobrem as paredes de sua cela. Curiosamente, os seios de Alma, desde a puberdade, cresceram de maneira distinta, uma maior que o outro, um mais belo que o outro. O seio esquerdo de Alma teria sugado toda beleza do seio direito tornando-se assim insuperável. Alma seria uma de suas vítimas mais cultuadas, e seu monumental seio DeSalvo guardou dentro de um vidro de éter enterrado sob um belo jardim.
Durante anos estudou um modo de matar os pais sem violar o tabu de violência contra seus progenitores. O recurso foi racional. Comunicou aos pais, com um comovente discurso, que cometeria suicídio pois não via mais sentido na vida. Os pais emocionados, ponderam que, se para o único filho a vida não possuía mais sentido para eles também não, então morreriam todos juntos. Assim fecham as portas da cozinha e abrem o gás. No momento oportuno, DeSalvo deixa o local trancando por fora a porta. Com esse gesto mata a mãe e o pai sem quebrar o tabu, pois ambos decidiram morrer por livre espontânea vontade.
Em suas palavras, os psiquiatras penitenciários desconhecem o interior dos homens que procuram curar: ‘‘Enganam-se os psiquiatras quando concluem que o desejo de matar meus pais procede daquele choque traumático da puberdade: ele pretendiam me castrar! Nada disso. Quando os matei já estava maduro e se alguma crítica fazia a eles era a de não terem me castrado a tempo, evitando-me as doenças e amolações relativas, já não digo à procriação, mas até mesmo à pulsão heterossexual reprodutora. Se os matei foi por geometria, não por compaixão, porque queria demonstrar a mim mesmo que podia fazê-lo justamente sem rancor nem causa interessada ou patológica, que não fosse o medo de que sobrevivessem a mim... o terror de que iam sobreviver a mim... Toda vez que imaginava esse terror eu o superava com o imaginário de matá-los. O mesmo acontecia com meus filhos. Apavora-me a crueldade atmosférica total, de um mundo em que eu não poderia fazer nada por eles.’’
Apesar de exercer a profissão de encanador, DeSalvo é um homem intelectualizado que domina os mais variados assuntos. Discute, por exemplo, teorias da psicologia com seus psiquiatras, questiona os diagnósticos utilizando obras de Freud, Laing, Lacan, Reich e outros teóricos da psique humana. Além disso, realiza leituras marxistas e sociológicas para a relação das pessoas com seu ambiente social. Seus argumentos são, em grande parte, iconoclastas e ao mesmo tempo contraditórios. Sua mente é um labirinto que a psicologia não consegue estender o fio de Ariadne
Relata que o próprio Laing, o papa da antipsiquiatria, realizou em pessoa uma visita à sua cela solitária. Após uma longa conversa, Laing saiu irritado diante dos argumentos de DeSalvo contrariando suas teorias: ‘‘A loucura é uma situação e não um problema individualizado de cada louco. Eu seria um sujeito fechado numa metáfora médica, tal como me disse Laing, e ao ser tratado como paciente fico isolado do sistema e já não sou uma pessoa. Por quê? Porque você só é uma pessoa quando se inscreve num contexto social, é a sociedade que faz de você uma pessoa. Essa lógica pode servir para os loucos ou para os não-loucos convencionais, mas para nós, os estranguladores, que entramos e saímos desse contexto social sem jamais perder nossa identidade, isto é, nossa condição de pessoa. Não delego o meu eu a ninguém, porque ficam com ele e quando o devolvem ele está irreconhecível e não me serve mais para nada.’’
Acontece que não há provas de que DeSalvo seja a pessoa que diz ser. Na realidade não matou 37 pessoas, não se chama Albert DeSalvo, não trabalha como encanador, etc. Na verdade chama-se Albert Cerrato, é redator da lendário ‘‘Dicionário Visual de Boston’’, nunca foi casado, nunca teve filhos, etc. Na realidade matou ‘‘apenas’’ o pai, a mãe e uma vizinha numa única tacada. Com dupla personalidade, capacidade clássica da esquizofrenia, vestiu a personalidade do ‘‘Estrangulador de Boston’’.
Mas as coisas não são tão simples. O leitor pode ficar em dúvida se realmente o protagonista é um louco esquizofrênico, ou um homem de tamanha habilidade para fazer o papel de maluco como sentido de vida. Os psiquiatras estão todo convencidos que ele é um doente irrecuperável, mas diante da habilidade racional DeSalvo/Cerrato as teorias tornam-se dúbias. Diante desse quadro, ele próprio escreve o relatório assinado pelo psiquiatra que o acompanhava.
A narrativa de Manuel Vázquez Montalbán, um dos grandes nomes da literatura espanhola contemporânea, segue a esquizofrenia do narrador. Em algumas situações chega à paranóia, presa dentro do conhecimento delirante de si mesmo. Exige uma leitura não linear o que pode assumir a forma de um texto caótico, mas na realidade revela uma metalinguagem da esquizofrenia, como se o mundo fosse, em seu estado presente, um mundo naturalmente esquizofrênico. E todo conhecimento que a ciência acumulou no campo psicológico não consegue oferecer cura, apenas apresenta leituras da doença.
Nesse sentido, o narrador de ‘‘O Estrangulador’’ constrói uma memória para si mesmo, muito diferente de sua existência real, como jogo de sobrevivência. E toda a ciência psicológica se debruça nessa memória construída para prová-la como fabricada. Mas isso acontece simultaneamente à própria confissão de Cerrato/DeSalvo de que realmente sua personalidade dupla foi construída. Assim, toda a leitura da psicologia enquanto ciência cai por terra: quando um esquizofrênico admite estar consciente de ter duas personalidades, deixa de ser esquizofrênico para se tornar um ficcionista, um criador de histórias. Talvez essa seja a grande informação subliminar engenhosamente colocada por Vázquez Montalbán em seu romance.
A memória ocupa lugar de destaque no relato do narrador. Aquilo que chama de realidade interiorizada: ‘‘Sem memória não existimos e eu pelo menos não consigo existir. Em minha memória realizam-se meus desejos, e quando tenho desejos faço com que se transformem o quanto antes em memória para que ninguém os fruste, nem os arranque de mim, nem os troque por desejos convencionais. A memória é a substância no sentido cartesiano: aquilo que existe de tal modo que não precisa de nenhuma outra coisa para existir.’’
Seria difícil definir com exatidão o que é verdade, mentira, delírio ou lucidez no mundo de DeSalvo/Cerrato criado por Vázquez Montalbán. Ele próprio se autodefine como autista por opção. Ao mesmo tempo, seu mundo é esquizofrênico pela lógica, uma extensão do mundo comum: ‘‘É possível morrer de sinceridade diante da descoberta de que sempre vamos de uma mentira a outra, de uma morte a outra.’’
O Estrangulador (El Estrangulador) – De Manuel Vázquez Montalbán, Editora Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire D’Aguiar, 212 páginas, R$ 22,00.Em seu novo romance, ‘O Estrangulador’, o escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán desenha o labirinto mental de um assassino esquizofrênico
ReproduçãoO esquizofrênico DeSalvo, protagonista do livro, compara um dos seios de sua vizinha às obras do pintor Gustav KlimtReproduçãoVázquez Montalbán cria uma narrativa que dificulta a compreensão do que é verdade, mentira, delírio ou lucidez