Acostumado a lidar com pessoas em situações-limite, o cardiologista Marco Fabiani também aposta na literatura como forma de expressão para melhor entender a si e ao outro. "A medicina, para quem quer, é um grande posto de observação da condição humana. É na dor que todas as máscaras caem e as pessoas mostram a sua fragilidade", argumenta. Para ele, a relação interpessoal entre o médico e o paciente é fundamental, embora infelizmente cada vez menos valorizada. "Um bom diagnóstico começa com uma boa conversa, uma boa história", defende o médico - com 33 anos de profissão e que desde 2004 aventura-se pela seara literária.
Depois de três livros de contos, hoje, às 17 horas, no Museu Histórico de Londrina, ele lança seu primeiro romance, "A memória é um pássaro sem luz", pela Atrito Arte Editora e Kan Editora, com patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). O evento ainda terá apresentação do Samba Duo, com Ronaldo Matos (voz e violão) e Fernando Salles (sax). No repertório, releituras de grandes mestres como Noel Rosa, Adoniran Barbosa, João Bosco, Cartola e Chico Buarque.
Neste novo trabalho, o foco é a memória como elemento de libertação, algo evocativo. Ao contar a história de Izabel Dantas – uma brasileira nascida numa dessas pequenas cidades que são parte rural, parte urbana, ele explora um universo bastante conhecido por moradores da nossa região. Pessoas de origem simples que em busca de uma vida melhor tiveram que trabalhar na cidade e contar com a sabedoria baseada na simplicidade para superar as dificuldades.
O romance todo é permeado por elementos ancestrais que a vida na roça mantém, seus mitos e crenças, mesclado com as transformações urbanas do cotidiano e a incorporação de novos hábitos e valores que a vida na cidade exige.
"Como sou de Ribeirão Claro, no norte pioneiro, conheci de perto essa realidade e cada personagem é meio ‘Frankenstein’, tem um pedacinho de alguém que a gente conhece, o olhar, o jeito de andar, a fisionomia, que vai dando sentido ao todo", explica o médico escritor, que nas horas vagas aproveita para fazer suas anotações em cadernetas antes de transcrevê-las no computador. Sobre as dificuldades de se redigir um romance – já que até então só havia publicado livros de contos -, Fabiani ressalta que pelo enredo ser maior é necessário mais cuidado na construção dos personagens. "O conto é mais sintético, focado na linguagem; já o romance tem mais personagens e pede a extensão do tempo sem perder o fio condutor", observa.
Ao considerar o hábito da escrita uma diversão e um prazer, Fabiani se diz satisfeito com o fato de conseguir dedicar-se ao mundo das letras, apesar do ritmo intenso de trabalho. "A gente se acostuma a organizar as ideias para os livros e aproveita cada tempinho livre", conta. E a sua inspiração – ou "voz interna" como costuma dizer, se baseia na infância. "São as minhas referências que povoam as minhas memórias. Quando a gente perde a memória, é como se perdesse a identidade, o enraizamento e o referencial. E como o próprio título do livro sugere, um pássaro sem luz vai em qualquer direção, assim como as memórias que multiplicam-se conforme as situações", pondera.
Outro ponto positivo apontado por ele é a oportunidade que a escrita proporciona de reunir pessoas com o mesmo foco de interesse. "Na verdade, fazemos livros por paixão, pela troca e pelo crescimento", conclui.
Seu livro de estreia, a coletânea de contos "Trilhas do fogo", foi lançado em 2004. Em 2005, lançou um segundo volume, "Contos de Pau e Pedra", e em 2009, "Histórias de um Norte Tão Velho", todos pela Atrito Arte Editora. Tem textos publicados na revista CULT (nº 100). O conto "As três pontas do laço" obteve menção honrosa no concurso da Newton Sampaio da Secretaria de Cultura do Paraná (2006). Atualmente trabalha no consultório e em vários hospitais de Londrina.

Serviço
Lançamento de "A memória é um pássaro sem luz", de Marco Fabiani
Quando – Hoje, às 17h
Onde – Museu Histórico de Londrina (R. Benjamin Constant, 900), em Londrina
Quanto – R$ 30 (promoção de lançamento: R$ 20)

Leia também:

- Ronaldo Correia de Brito abre Semana Literária do Sesc

mockup