A memória cantando em círculos
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de junho de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Passar o tempo nos dias de hoje é muito fácil, basta ligar a televisão e sentar no sofá. Mas você já parou para pensar o que as crianças faziam antes de existir a televisão? Com certeza não ficavam esparramadas no sofá olhando para a parede. Nem para a cortina, nem para a janela. Talvez algumas delas até pulassem a janela em busca de algo mais interessante do que assistir parede.
Antes da televisão ser inventada, as crianças corriam e pulavam de uma brincadeira para outra. Entre as dezenas de brincadeira dessa época estavam as cantigas de roda. Cantar era uma brincadeira bastante comum. Meninos e meninas cantavam músicas que aprendiam com os pais, avós, tios e tias. Eram canções que viviam gravadas na memória das pessoas. Uma ia passando para outra, tipo telefone sem fio, numa corrente de gerações.
Com certeza, em alguma situação, você já ouviu algumas delas. Por exemplo: ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar meia volta, volta e meia vamos dar... Ou: eu fui no Tororó beber água, não achei, achei a morena, que no Tororó deixei... Ou ainda: marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso para o quartel...
Ninguém sabe ao certo quando essas cantigas nasceram, nem quem as criou. Elas fazem parte de uma tradição oral que integra o folclore brasileiro. Através delas, muita gente deu as mãos e se divertiu. Elas aproximavam as pessoas, elas uniam as pessoas. Isso mesmo, através delas crianças e adultos se uniam para viver momentos de alegria.
Várias dessas cantigas estão reunidas em O Tesouro Das Cantigas Para Crianças, novo livro de Ana Maria Machado lançado pela Editora Nova Fronteira. Com ilustrações de Cláudio Martins, a obra traz 36 letras (canções, parlendas e trovas) retiradas do colorido baú do folclore brasileiro. A edição vem acompanhada de um CD com gravações com vozes de crianças e adultos de todas as letras do livro. Para ler, ouvir e cantar junto.
Se você tiver a oportunidade de ler o livro e achar que as letras estão um pouco diferente daquelas que você já sabe, não se preocupe. Todo mundo passa por isso. Eu também passei. Quando li a parlenda que diz Cadê o toucinho que estava aqui? O gato comeu. Cadê o gato? Fugiu pro mato. Cadê o mato? O fogo queimou..., percebi que era diferente daquela que meu avô me ensinou quando eu era pequeno. Será que meu avô me ensinou errado? Será que sua mãe ensinou errado para você? Claro que não.
Isso acontece por uma fato muito simples. Por serem transmitidas oralmente (pela voz e não pela escrita) através dos tempos, algumas modificações são normais. As diferenças também podem ocorrer de acordo com a região geográfica do país. Nesse assunto não há certo ou errado, fique a vontade para escolher a variação que mais lhe agradar. Eu, particularmente, prefiro a versão de Cadê o toucinho que estava aqui? que aprendi com meu avô. Primeiro porque que ela está gravada em minha memória há quase 40 anos. Segundo porque, ao cantá-la, sempre lembro de meu avô.
As cantigas de roda não são apenas canções. São memórias que cantam de mãos dadas. Com alegria é claro. Experimente.
O Tesouro Das Cantigas Para Crianças Organização de Ana Maria Machado, ilustrações de Cláudio Martins, Editora Nova Fronteira, 96 páginas, R$ 29,00. Acompanha CD com 36 cantigas e parlendas direção musical, arranjos e execução de Lourenço Baêta e Claudio Guimarães, vozes de Lourenço Baêta, Antônia Adnet, Joana Adnet, Lizzie Bravo, Luísa Baêta (adultos), Guido Martins, Henrique Machado, Julia Guimarães, Luciana Pieri, Morgana Bravo e Pilar Martins (crianças), participação especial de Claudio Nucci, Zé Renato, Maurício Maestro e Fernando Gama.


