A história de vida de Ernesto Sabato é pouco comum para um escritor. Alguém que se agarrou à literatura como um náufrago agarra uma pequena ilha em alto mar. Alguém que, após conhecer cada pedra da ilha, decide voltar para as ondas do mar, ser novamente um náufrago.
Ernesto Sabato nasceu na Argentina em 1911. Doutor em física, era considerado um grande especialista em termodinâmica. Trabalhando no Laboratório Curie, em Paris, tinha um futuro promissor como cientista. Mas, aos trinta anos de idade, no auge da carreira acadêmica, largou tudo. Sentia-se corroído por um inexplicável vazio.
Voltou ao seu país de origem, arrumou uma casa no meio do mato, uma espécie de solitária cabana sem energia elétrica ou qualquer tipo de conforto, e passou a viver como Henry D. Thoreau (1817 - 1862) isolado da civilização e suas maldições.
A estadia nos bosques não foi longa, e Sabato passou a se dedicar à literatura. Seu primeiro romance ‘‘O Túnel’’ foi recusado por várias editoras e o jeito foi publicá-lo com dinheiro do próprio bolso. Escrito de uma forma vigorosa e inundado por um pessimismo filosófico, o livro rapidamente ganhou edições em todo o mundo. Depois escreveu apenas outros dois romances ‘‘Sobre Heróis e Tumbas’’ (1961), ‘‘Abadon, o Exterminador’’ (1974). Sua produção ensaística foi bem mais extensa, entre os vários títulos estão ‘‘Homens e Engrenagens’’ (1951), ‘‘O Escritor e Seus Fantasmas’’ e ‘‘Nós e o Universo’’ (1945).
Quando passou a ser considerado um dos grandes escritores de língua espanhola do século 20, Ernesto Sabato simplesmente abandonou a literatura para se dedicar à pintura. No final da década de 70, trocou o lápis pelo pincel, atividade que exerce até hoje em Buenos Aires, com 89 anos de idade.
Levando em consideração essa trajetória, associado ao fato de ter trabalhado com afinco como presidente da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas durante a ditadura militar argentina, se algum dia Sabato escrevesse suas memórias, seria um livro extenso.
Ledo engano. A Editora Companhia das Letras acaba de publicar ‘‘Antes do Fim’’, obra que traz as memórias do escritor publicada no ano passado na Argentina e revela um homem velho e cansado de viver. Um homem melancólico que fez a opção pelo esquecimento do que propriamente pelas lembranças.
Nas primeiras palavras de ‘‘Antes de Fim’’, Sabato abre o jogo: ‘‘Nunca tive boa memória, sempre sofri essa desvantagem; mas talvez seja um modo de recordar apenas o que se deve, talvez a maior coisa que nos aconteceu na vida, a que tem algum significado profundo, a que foi decisiva - para o bem e para o mal - nesta complexa, contraditória e inexplicável viagem rumo à morte que é a vida de toda pessoa.’’
Também deixa claro que escreveu ‘‘Antes do Fim’’ por insistência dos amigos, como uma mensagem de esperança aos jovens. Mas foi um pouco além: ‘‘Escrevo sobretudo para os adolescentes e jovens, mas também para aqueles que, como eu, se aproximam da morte e se perguntam para que e por que vivemos e lutamos, sonhamos, escrevemos, pintamos ou, simplesmente, empalhamos cadeiras.’’ De uma maneira mais sutil, escreve para realizar uma espécie de acerto de contas com o pessimismo e a dureza que impregna toda a sua ficção.
Dessa maneira, as memórias de Sabato estão equilibradas em três tempos, todo com o mesmo peso: o passado, o presente e o futuro. Após ter acompanhado os acontecimentos de todo o século 20, o século que colocou em prática o que chama de assustadora ‘‘desumanização’’ da humanidade, chega a buscar algum tipo de esperança, seja nas próximas gerações ou na existência de alguma divindade superior.
Apesar de se esforçar em ver alguma esperança para o homem, apresenta sua descrença em relação a um futuro do mundo. Em seu pensamento, o homem contemporâneo ao perder suas utopias, perdeu o sentido de sua própria vida: ‘‘Só quem for capaz de encarnar a utopia está qualificado para o combate decisivo, o de recuperar o quanto de humanidade houvermos perdido.’’
Aproveitando o lançamento de ‘‘Antes do Fim’’, a Companhia das Letras está reeditando ‘‘O Túnel’’, primeiro romance de Sabato publicado em 1948. Trata-se do mais febril e cultuado texto ficcional do escritor. Narra a história de um atormentado pintor chamado Castel que, preso por assassinato, narra os acontecimentos e sentimentos que o levaram a matar a mulher que amava.
‘‘O Túnel’’ é uma espécie de ‘‘O Estrangeiro’’ de Albert Camus (1913 - 1960) ao contrário. Se em ‘‘O Estrangeiro’’ o sentido de um ato aparece somente após a realização do ato, em ‘‘O Túnel’’ o sentido do ato se constrói antes de sua realização. O ato, no caso, é a morte.
Apaixonado por uma mulher desconhecida, Castel vê seu amor se transformar num tormento doentio. Não sentindo-se correspondido da maneira que idealiza, começa a entrar em parafuso dentro de sua própria razão. Sua relação com a mulher que ama é esmiuçada pelo lógica do eu, e todo e qualquer ato da amada é lido como um combatente inimigo.
A narrativa, através da voz de Castel, transforma a loucura em razão. Ou seja, a desrazão da força dos sentimentos é convertida em argumentos racionais impelidos a construírem uma realidade individual. O próprio Sabato afirma que escreveu o romance numa espécie de desvario: ‘‘Enquanto eu escrevia esse romance, arrastado por sentimentos confusos e impulsos inconscientes, muitas vezes me detinha, perplexo, para avaliar o que estava saindo, tão diferente do que havia previsto. E, sobretudo, me intrigava a importância crescente que iam assumindo o ciúme e o problema da posse física.’’
‘‘O Túnel’’ é um romance visceral em que o leitor não fica impune ao processo destrutivo que perfura o personagem narrador. Perturbador porque desloca sentimentos elevados em ações violentas. Nas palavras do autor, ‘‘as idéias metafísicas se transformam em problemas psicológicos, a solidão metafísica passa a ser o isolamento de um homem concreto numa cidade concreta, o desespero metafísico se transforma em ciúme, e a história que parecia destinada a ilustrar um problema metafísico se transforma em romance de paixão e crime.’’
- ‘‘Antes do Fim’’, de Ernesto Sabato, Editora Companhia das Letras, tradução de Sérgio Molina, 168 páginas, R$ 22,00.
- ‘‘O Túnel’’, de Ernesto Sabato, Editora Companhia das Letras, tradução de Sérgio Molina, 152 páginas, R$ 22,00.