A melancolia maior que o mundo em livro

Em seu novo romance, “A Tristeza Infinita”, Antônio Xerxenesky se debruça sobre uma melancolia histórica e social numa abordagem sobre a depressão e a esquizofrenia

Marcos Losnak
Marcos Losnak

 

Livro de Antônio Xerxenesky traz as experiências de um jovem psiquiatra que começa a trablahar num hospital que é o primeiro a utilizar métodos humanizados para tratar doenças mentais
Livro de Antônio Xerxenesky traz as experiências de um jovem psiquiatra que começa a trablahar num hospital que é o primeiro a utilizar métodos humanizados para tratar doenças mentais | Renato Parada/ Divulgação
 

Quando o mundo fica doente, as pessoas também adoecem. Quando as pessoas adoecem, o mundo também fica doente.

Este argumento pode ser a síntese de “Uma Tristeza Infinita”, novo livro do escritor e tradutor gaúcho Antônio Xerxenesky lançado pela editora Companhia das Letras. Um romance que expõe como os traumas históricos e sociais podem ter a mesma dimensão dos traumas íntimos e pessoais.



A obra narra a trajetória de Nicolas, um jovem psiquiatra francês que começa a trabalhar em um hospital psiquiátrico localizado num pequeno vilarejo da Suíça. O lugar, que recebe pacientes de várias regiões da Europa, é um dos poucos a utilizar métodos de tratamento humanizado e não violentos.

Nicolas começa a atuar no hospital logo após o fim da Primeira Guerra Mundial aplicando as novas técnicas da psicanálise em pacientes com traumas provocados pelo conflito bélico. Optando em tratar os internos através de conversas, estabelece um processo empático que começa a interferir em sua própria saúde mental.



“Uma Infinita Tristeza” retrata o surgimento da primeira droga química utilizada em tratamentos contra a depressão e esquizofrenia (a clorpromazina, sintetizada em 1949), algo que provocaria uma revolução no tratamento psiquiátrico.



Ao entrar na tristeza de seus pacientes, o médico também começa a sofrer alguns sintomas da melancolia: “Olhou para sua mulher e pensou, isso é a realidade, o mundo não está dentro do meu cérebro, ela existe, ela é outra pessoa, eu sinto o cascalho se esfacelando sob meus pés, o mundo existe, eu estou aqui, e existe a tristeza histórica, a tristeza profunda de quem viu o horror e menos um palmo de distância, de que descobriu que o vizinho pode ser o torturador, e estou aqui e conheço todos os motivos racionais para ser horrivelmente triste, e preciso encontrar algo irracional a que me agarrar, preciso encontrar a matéria escura no universo que arrasta os corpos celestes, e eu estou aqui, embora não saiba o motivo, embora não saiba por quanto tempo, embora eu possa morrer amanhã e tudo deixará de existir, e meu corpo será enterrado e voltarei a ser parte da natureza indiferença.”



Cercado pelo universo de seus pacientes afogados em tristezas, Nicolas procura não apenas encontrar a origem das tormentas, mas também como elas se manifestam. Percebe que, em estados de depressão profunda, qualquer pessoa não consegue se lembrar de mínimos momentos de alegria na existência. Como se a melancolia fosse uma espécie de doença que se instaura no hospedeiro provocando nele uma visão embaçada do mundo.



A imagem descrita seria a de uma escura e densa revoada de insetos: “Quando se nasce, ocorre um longo período de aprendizado até o bebê compreender que não é o mundo, que os objetos estão separados dele, que o pai e a mãe não o integram. Um longo percurso de desenvolvimento cognitivo para entender o que é um indivíduo. E então a melancolia aparece, como uma revoada de gafanhotos no horizonte, cujas fronteiras se estendem por todo o globo, e de repente fica impossível se separar do mundo, o mundo está dentro da sua cabeça, e ele é composto por uma nuvem de insetos que trazem destruição e pânico.”



Mas a narrativa de Antônio Xerxenesky vai além. Coloca em questão a saúde mental na convivência entre cidadãos fascistas e cidadãos democráticos. Com o fim da Primeira Guerra, ocorreu a necessidade de milhões de alemães e simpatizantes deixarem a postura nazista para assumirem uma postura humanitária. Tudo num passe de mágica. De um dia para outro, culpados e inocentes, assassinos e vítimas, passaram a viver como iguais, sem distinções, sem diferenças, com o inconsciente devidamente sublimado.



Na fila da padaria, para comprar um inofensivo pão, o órfão que perdeu a família se vê caminhando lado a lado como o carrasco que executou sua família. Numa correlação de imagens, na fila do supermercado, a pessoa vacinada se vê caminhando lado a lado com a pessoa que se recusou a tomar a vacina, o carrasco da imunização coletiva. O sentido é claro: “Nem todos somos diretamente culpados, mas somos todos responsáveis.”



A tristeza, especificamente aquela que não possui fim, aquela que não oferece trégua, demonstra que quando o mundo adoece, as pessoas também ficam doentes. E que quando as pessoas ficam doentes, o mundo também adoece.

 

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. | Reprodução
 



Serviço:

“Uma Tristeza Infinita”

Autor – Antônio Xerxenesky

Editora – Companhia das Letras

Páginas – 256

Quanto – R$ 64,90 (papel) e R$ 39,90 (e-book

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