A mediocridade travestida de sucesso
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de março de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoCom Independência, o escritor norte-americano Richard Ford ganhou os prêmios Pulitzer e o FaulknerFrank é um homem comum, vive a mediocridade do cotidiano com toques de ironia. Divorciado, ainda sonha em algum dia voltar a viver com a ex-mulher. Abandonou o jornalismo esportivo da cidade grande para tornar-se corretor de imóveis numa pequena cidade do interior. Eventualmente possui algumas namoradas, mas nada duradouro. Um de seus dois filhos atravessa problemas típicos da adolescência. Possui duas casas de aluguel e é sócio de uma barraca de lanche de beira de estrada. Sua vida não possui grandes feitos, apenas um cotidiano sem grandes novidades - também conhecido sob a denominação de empurrando com a barriga.
Com Frank, personagem central do romance Independência (Independence Day), lançado pela Editora Record, o escritor norte-americano Richard Ford ganhou, em 1996, os dois principais prêmios literários dos Estados Unidos, o Pulitzer e o Faulkner. Retratando classe média americana com ironia, e do ponto de vista de um homem comum, Richad Ford criou um livro emblemático sobre a mediocridade travestida de sucesso que fecha as portas do século vinte da cultura americana.
Toda a história de Independência ocorre em apenas dois dias, o 4 de julho - o independence day norte-americano equivalente ao 7 de setembro brasileiro - e sua véspera. Dois acontecimentos básicos atravessam o romance. Um está em Frank mostrando algumas residências à venda para um irritante casal que já olhou centenas de casas e não gostou de nenhuma. Outro está em Frank levando seu filho adolescente problemático para conhecer os pontos turísticos mais bregas da cultura americana. Desacreditado em todas as coisas que as pessoas dizem ter algum sentido, Frank segue em frente procurando algum sentido para a sua própria existência. Sentido que nunca encontrará e, em último caso, terá que inventá-lo com o alicerce sobre uma montanha de desculpas.
Richard Ford utiliza em Independência um recurso narrativo que pode ser considerado muito interessante para alguns leitores, e profundamente enfadonho para outros. Ao descrever uma ação, incorpora tudo que está a sua volta, coisas que não possuem nenhuma relação direta com a ação em si, mas que montam a cena de forma mais ampla. Por exemplo, quando Frank está falando num telefone público, além da conversa via telefone, ele intercala descrições das pessoas da fila, as cores dos carros que passam pela rua, o cheiro do cachorro-quente da criança ao lado, reproduz pedaços de diálogos perdidos trazidos pela vento, o cachorro que late atrás do muro, etc.
Ao final do livro fica a sensação de que a massa é a maior imbecilidade dos mortais. Integrar-se a ela pode trazer uma certa segurança para a existência social, bem como amaldiçoá-la pode ser um método para a segurança da individualidade. Não é por acaso, ironicamente, que o filho problema de Frank usa uma surrada camiseta com a seguinte frase: Felicidade é ser único.


