Os últimos anos foram de superação para Cristovão Tezza, escritor catarinense radicado em Curitiba, que trabalha como professor na Universidade Federal do Paraná. Com 56 anos e 13 livros editados, Tezza escreveu sobre um tema delicado em seu último romance, lançando mão de experiências pessoais - uma característica que até então não fazia parte de seu estilo.

''O Filho Eterno'', lançado no final do ano passado pela Editora Record, retrata as inseguranças e conflitos de um homem para enfrentar o fato de ter um filho com Síndrome de Down. A história, escrita sem pieguismo, é inspirada na relação de Tezza com seu filho Felipe, hoje com 25 anos.

Bem recebido por crítica e público, o livro ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance do ano, e ainda concorre na categoria melhor obra de ficção, que será anunciada no próximo dia 30. No fim deste mês, também serão anunciados os ganhadores de outras duas premiações em que ''O Filho Eterno'' compete: Prêmio Bravo! (dia 27) e Prêmio Portugal-Telecom (dia 29).

''O Filho Eterno'', tem um teor autobiográfico. Por que só agora você decidiu escrever um romance inspirado em fatos da sua vida?
Porque só de cinco anos para cá me senti maduro o suficiente para pensar sobre o tema, obviamente muito forte para mim. Antes, sequer me ocorria a idéia - como se o assunto não pertencesse ao mundo da literatura, o que é absurdo. Pouco a pouco fui me envolvendo com o projeto. Acho que, de material biográfico, não tenho mais nada a usar. ''O Filho Eterno'' foi um caso único.

Os prêmios literários pagam ao autor uma boa quantia em dinheiro. É possível para um escritor premiado viver de livros?
É possível, mas é muito difícil. Digamos que só agora eu teria condições, quem sabe, de largar a universidade e viver de escrever, o que não é exatamente viver de livros. No Brasil, quase ninguém vive só de livros - talvez em áreas especiais, como na dos livros didáticos ou infanto-juvenis. Em geral, somos escritores e alguma outra coisa: jornalista, professor, publicitário...

Hoje a tecnologia entrou também no meio literário. É possível ler livros no computador, palmtops e até no celular. Este avanço o assusta? Qual sua opinião sobre os livros digitais?
Nada me assusta na revolução digital - sou absolutamente apaixonado por todas as novidades da informática e procuro saber de tudo que aparece de novo na área. Mas os livros digitais, de fato, não ''pegaram'', pelo menos até aqui. É muito ruim ler um livro inteiro no monitor. Não conheço os ''aparelhos-livros'' que estão surgindo, mas do que sei, nada chega perto do objeto ''livro'', que é uma invenção maravilhosa. Leve, portátil, inquebrável, funciona sem bateria, transportável, agradável à vista, prático... Agora, a internet pode ser um ''nicho'' de livros especiais, raros, de pouco público, livros cuja publicação em papel seria inviável ou demasiado cara.

Desde a publicação de seu primeiro romance até hoje, passaram-se quase 30 anos. Como você definiria a sua carreira como escritor durante esta trajetória?
Não tive tempo para pensar, as coisas vão acontecendo. Lembro que aos 15 anos já me sentia escritor, embora não escrevesse nada. Hoje, aos 56 anos, olho para trás e sinto um certo espanto. De certa forma, eu fui me escrevendo pelo caminho.

O que você tem lido ultimamente? Quais são os favoritos de sua estante de livros?
Leio de tudo, mas menos do que gostaria. Leio também por força do trabalho. Acabei de ler o ''Absurdistão'', Do Gary Shteyngart, para uma resenha, dois livros sobre piratas, para outra. Estou lendo uma biografia do Schopenhauer e o belíssimo ''A Sociedade de Corte'', do Norbert Elias. Leio muita prosa de ficção. Hoje, gosto muito de J.M. Coetzee e Ian McEwan.

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