Ninguém sabe ao certo se ele realmente existiu, mesmo assim Homero é o poeta que mais influenciou a escritores do Ocidente. Na verdade, historicamente, ele foi o responsável pela criação da literatura ocidental através dos clássicos ‘‘Ilíada’’ e ‘‘Odisséia’’. Diz a lenda que Homero viveu na Grécia durante o século 8 a.C. Cego, ainda conforme a lenda, teria presenciado o nascimento da cidade-estado, do oráculo de Delfos e dos jogos olímpicos, os grandes emblemas da cultura helênica.
‘‘Ilíada’’ e ‘‘Odisséia’’ foram compostos originalmente dentro de uma rica tradição oral. Muito tempo depois foram manuscritos. A suspeita de diferentes estilo presentes em ambas as obras leva alguns pesquisadores a acreditar que tenham sido escritos por mais de um poeta além de Homero.
Independente das extensas discussões acadêmicas sobre as questões homéricas, ‘‘Ilíada’’ e ‘‘Odisséia’’ – entra século, sai século, milênio e sai milênio –, é o clássico dos clássicos. Mesmo alguém que nunca leu, ou nunca ouviu falar dos livros, sabe algum episódio descrito neles. Do lendário cavalo de Tróia ao mágico canto das sereias.
A Editora Ediouro acaba de reeditar ‘‘Ilíada’’ e ‘‘Odisséia’’ com uma das mais importantes traduções do texto homérico para a língua portuguesa realizada por Carlos Alberto Nunes. Competindo com essa tradução (publicada originalmente na década de 60) está a realizada por Odorico Mendes no século 19.
A tradução integral de Nunes procura reconstituir o texto original grego escrito em verso hexâmetros. Para isso optou pelos por versos de dezesseis sílabas, equivalente ao estilo de Homero. O resultado é uma viagem pela linguagem muito diferente da utilizada nos dias atuais.
A leitura contemporânea dos versos integrais de Homero leva a duas impressões básicas. O leitor entrará pelos corredores de uma leitura totalmente alucinante ou profundamente entediante. Não há espaço para meio termo. Isso porque a narrativa não é apresentada de maneira objetiva, ou dentro da lógica narrativa em vigor nos dias de hoje. O texto pode ser encarado como o mundo da lua da História.
A ‘‘Ilíada’’ e a ‘‘Odisséia’’ são livros gêmeos. ‘‘Ilíada’’ (do grego Ilion, denominação original da cidade de Tróia – a atual Hissarlik, na Turquia) reconstitui os dez anos da Guerra de Tróia, uma sangrenta batalha que foi provocada por causa de uma bela mulher. A figura do herói recai sobre Aquiles, jovem guerreiro espartano arrastado por desenfreadas paixões. O relato de Homero termina com a conquista de Tróia através da artimanha do enorme cavalo de madeira.
A ‘‘Odisséia’’ relata os dez anos transcorridos após o fim da guerra, quando o guerreiro Ulisses tenta voltar para casa, esperando repousar nos braços da esposa, Penélope. Na realidade, Ulisses é a mais conhecida denominação latina do herói grego chamado Odisseu (que deu origem ao termo ‘‘odisséia’’). Antes de partir para a Guerra de Tróia, Odisseu fez um pacto com sua mulher: se não retornasse em dez anos, ela poderia de casar com outro homem.
Mas os deuses do Olimpo resolveram ‘‘brincar’’ com o destino de Odisseu, vulgo Ulisses. Após o fim da guerra, ele começou a navegar de volta para casa e enfrentou tantos desafios e aventuras durante o percurso que se esgotaram os dez anos da promessa. Enquanto isso, sua mulher Penélope recebendo todos os tipo de galanteios, estava prestes a quebrar sua palavra.
Nos textos de apresentação de ‘‘Ilíada’’ e ‘‘Odisséia’’, Nunes reforça a genérica idéia de que as duas obras possuem gêneros literários distintos. A ‘‘Ilíada’’ seria uma epopéia regionalista, a ‘‘Odisséia’’ um romance universal. A primeira traria em sua narrativa as tradições das tribos helênicas em suas diferentes etnias, dentro de um embasamento histórico mesmo com a mitologia exercendo forte influência. No caso da segunda, ‘‘Odisséia’’, seu conteúdo seria uma sucessão de narrativas universais, e até mesmo atemporais dos mecanismos psicológicos da humanidade – com a mitologia grega em evidência.
Esse seria um dos motivos da ‘‘Odisséia’’ ser mais popular entre os leitores de séculos e séculos do que a ‘‘Ilíada’’. Ela poderia ser comparada às ‘‘Mil e Uma Noites’’, onde uma série de histórias independentes (algumas delas de cunho fabular) é amarrada dentro de uma estrutura maior. O milenar arquétipo de histórias dentro de histórias.
A nova reedição das obras de Homero com a tradução de Nunes receberam um apêndice com verbetes dos principais personagens das histórias homéricas. Apesar disso, a ausência de notas no decorrer dos texto não potencializa a compreensão do leitor leigo. Ao lado disso, está o fato do tradutor utilizar a língua portuguesa de maneira complexa e elegante, um estilo praticamente em extinção.
O interessante é que a leitura de ‘‘Odisséia’’ e de ‘‘Ilíada’’, três mil anos depois de sua origem, pode ser apreciado hoje como um texto completamente pirado. Onde a tradição se apresenta com conteúdo muito mais alucinante do que aquele da literatura moderna ou pós-moderna. Um verdadeiro paradoxo.
•‘‘Odisséia’’ - De Homero, Editora Ediouro (telefone: (21) 560-6122 / internet: www.ediouro.com.br), tradução e prefácio de Carlos Alberto Nunes, 432 páginas, R$ 22,90.
•‘‘Ilíada’’ - De Homero, Editora Ediouro, tradução e prefácio de Carlos Alberto Nunes, 574 páginas, R$ 28,90.

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