"A Máquina" tem como protagonista um apaixonado decidido a presentear sua amada com o mundo
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terça-feira, 01 de fevereiro de 2000
Por Beth Népoli 
São Paulo, 01 (AE) - Depois de criar com êxito para a televisão - episódios de "Comédia da Vida Privada" - e para o teatro -, autor e diretor de sucessos de público como "A Dona da História", com Marieta Severo e Andréa Beltrão, e "Uma Noite na Lua", com Marco Nanini - o pernambucano João Falcão dirige "A Máquina", adaptação teatral do romance homônimo de sua mulher, Adriana Falcão.
A encantadora fábula do homem decidido a presentear sua amada com nada menos que o mundo estreou na semana passada num palco circular giratório instalado no Armazém 14 do Cais do Porto, no Recife, com um elenco formado por seis atores, todos na faixa dos 20 anos, o mais velho com 23. Em março, "A Máquina" participa do Festival de Teatro de Curitiba e, em abril, inicia temporada em São Paulo. O local de estréia, fora do eixo Rio-São Paulo, e a escolha do elenco - atores desconhecidos do grande público - obedeceram a critérios estritamente artísticos, coerentes com o tema do espetáculo. Homem invisível - No início do ano, Falcão encomendou a Adriana uma peça de teatro sobre um tipo de imigrante diferente do retirante nordestino que abandona sua terra em busca de sobrevivência. "Queria falar sobre as pessoas obrigadas a deixar sua terra natal para se sentirem existindo", diz Falcão. "O artista, que cria fora dos grandes centros, vive a angústia de sentir-se invisível, por mais que sua arte seja reconhecida em sua região".
A origem dessa sensação de invisibilidade é muito clara na sociedade contemporânea, marcada pela égide dos meios de comunicação de massa. "Quando se vive no Nordeste, a televisão que a gente vê ou a revista que a gente lê nunca fala de alguém que a gente conhece ou convive". Essa invisibilidade - que pode ser estendida à situação dos países periféricos com relação ao Primeiro Mundo ou até servir como metáfora da desimportância do homem diante da imensidão do universo - seria o tema da peça encomendada a Adriana.
"No meio do caminho, Adriana desistiu do trabalho, porque não estava conseguindo escrever para teatro", lembra Falcão. "Não é a minha praia", dizia ela. Mas Falcão ficou fascinado ao ler as anotações da mulher, que já havia criado o personagem Antônio, morador da pequena cidade de Nordestina, "um lugar sem futuro", aos poucos abandonado por vários moradores. Adriana estava escrevendo uma fábula de rara força dramática e Falcão convenceu-a a continuar, ainda que a forma não fosse teatral.
"Ela pegou o jeito do povo falar e elaborou de forma literária, o que resultou numa linguagem a um só tempo simples e requintada", afirma Falcão. Como exemplo, ele cita o trecho no qual o narrador da história comenta a falta de acontecimentos capazes de quebrar a rotina em Nordestina: "O tempo andava espaçoso por não ter quem lhe interrompesse em momento importante".
O protagonista de "A Máquina" é um homem comum - o número 19 na folha de pagamento da prefeitura local -, um homem tão comum que nem mesmo pensa em deixar Nordestina, como os outros. Ele só quer um dia casar-se com Karina, a atriz por quem está apaixonado. Por isso, todas as noites, ao término do expediente na prefeitura, vai ajudá-la a "treinar" para o teatro - treinar não, ensaiar - como sempre corrige Karina.
Mas a vida de Antônio muda inteiramente quando a namorada também resolve deixar Nordestina para conquistar o mundo. "É o mundo que você quer? Então eu trago ele para você"
afirma o personagem. Movido pelo amor - e que melhor motor pode haver para a história -, Antônio sai em busca do mundo. "Mas ele não considera presenteável o mundo que encontra", antecipa Falcão. E decide mudar o mundo, antes de entregá-lo a Karina. Utopia - Ele vai conseguir? Importante mesmo é o fato de alguém acreditar na "utopia" de poder mudar o mundo. Importante é alguém ainda ficar indignado com o "estado" do mundo, acreditar na possibilidade de transformá-lo e agir para isso. Quanto ao resultado, é melhor guardar segredo para não estragar a surpresa do espectador. Ou do possível leitor, porque "A Máquina" já está disponível nas livrarias, numa edição da Objetiva (125 págs. R$ 16,00).
Ainda assim, dá para adiantar que a história se passa cerca de 20 anos após a virada do milênio. O mundo de hoje - esse mesmo em que nós vivemos e foi considerado não presenteável por Antônio - já é coisa do passado. Tanto que o narrador se refere ao nosso tempo como um época em que "toda moça queria ser bonita e toda moça bonita queria ser artista de televisão". Desalento - E para não deixar dúvidas, explica direitinho o que era televisão: "Era um negócio que ficava passando umas historinhas pro povo ficar vendo. As historinhas iam acontecendo aos pedaços, de vez em quando vinham, não um, mas vários anúncios para vender coisas assim como bicicleta. A finalidade era encontrar quem quisesse comprar o que era anunciado, pois com parte do dinheiro da venda se pagavam os tais anúncios e com parte do dinheiro dos anúncios pagava-se a feição das tais histórias, mas eles faziam as historinhas tão bem-feitas que quem olhasse assim pensava que a finalidade era essa e não aquela".
Embora escreva para a televisão e reconheça a força do veículo, Falcão mostra-se desanimado com a qualidade da quase totalidade da programação. "É desalentador ver uma personagem ganhando um concurso de bumbum dourado no capítulo final de uma novela", lembra. "Não era o castigo de uma vilã, mas a premiação da mocinha". Para Falcão, Antônio é o contraponto do típico herói de telenovela, bonitinho, porém ordinário. "Na novela ninguém aparece trabalhando, só comendo, e os heróis são abomináveis, porque só buscam o próprio prazer, só têm objetivos individualistas".
Por outro lado, Falcão é só elogios para o teatro, arte pela qual mostra-se cada vez mais apaixonado. Jóia rara - "Em tempos de satélite, de trocas velozes e globalizadas, cada vez mais o teatro se transforma numa arte luxuosa, numa jóia rara, um diamente", afirma. "Num mundo dominado pelos meios de comunicação de massa, o teatro é o último reduto do homem, um lugar de celebração, onde um conjunto de pessoas se reúne e interfere com sua respiração no espetáculo que ocorre em tempo real: um lugar onde tudo pode acontecer".
Embora não hesite em utilizar moderna tecnologia em cena
Falcão defende com veemência a idéia de que a arte teatral vai ganhar importância na medida em que aposte cada vez mais na sua singularidade: gente falando para gente ao vivo. Por isso, para a encenação de "A Máquina", Falcão foi buscar inspiração nos contadores de história do Nordeste. Daí a escolha do elenco, integrado por atores baianos e pernambucanos: Lázaro Ramos, Gustavo Lago, Wagner Moura, Felipe Koury e Vladimir Brichta revezam-se no papel de Antônio e sua sobrinha, Karina Falcão, interpreta a personagem Karina.
"Eu queria gente que conhecesse bem o universo retratado e tivesse a vivência dos personagens, como eu tenho", argumenta Falcão. "Não queria um sotaque, mas atores que dominassem o vocabulário e a música da linguagem dos personagens". Esses atores se revezam para contar a história do herói Antônio, já transformado em lenda no "tempo" da peça cuja ambientação é futurista.
O público acomoda-se diante de um palco giratório e vai ouvindo a história de acordo com o ponto de vista do "Antônio" que tem diante dos olhos e ouvidos naquele momento. Os figurinos assinados pelo carioca Jefferson Miranda remetem ao artesanato nordestino, crochês e rendas, como se no futuro um estilista resolvesse criar seus modelos reciclando material do passado.
O diretor foi também responsável pela preparação do cenário, o palco móvel que abriga ainda a "máquina" do título, uma falsa máquina de viajar no tempo, como o espectador verá. "Mas isso se transforma em mais um elemento cênico e, sem dúvida, não o mais importante", avisa Falcão. A encenação mantém o tom de fábula do livro e o diálogo constante entre tradição e modernidade: do tema à linguagem, dos figurinos à trilha sonora.


