'A MÁQUINA' É BEM SINCRONIZADA
Francelino França
De Londrina
A família Falcão desembarcou em Curitiba trazendo na bagagem um relógio nordestinamente suíço chamado A Máquina. O romance homônimo de Adriana Falcão foi adaptado e dirigido por João Falcão, seu marido, o mais inventivo diretor brasileiro da atualidade. A Máquina, montado no Espaço Galpão, se transformou num espetáculo solar e encantador nesse FTC. A comunicabilidade, a alegria, a imaginação e a perseverança foram habilmente condensadas em pouco mais de uma hora.
O espetáculo orgânico, nordestino na alegoria, se revelou universal nos temas abordados. A linguagem lúdica da fábula de Adriana Falcão guiou aos ouvidos encantados do público uma sonoridade de extrema musicalidade. Adriana lavrou caprichosamente um linguajar cadenciado e ritmado. A sintaxe da linguagem levada ao palco deixou um sabor de verso improvisado dos repentistas. O caráter alegórico da narrativa preencheu o imaginário do espectador como um açude arrebentando. Era diversão pura.
Karina moça voluptuosa e aprisionada em devaneios não se conforma com os limites geográficos de Nordestina, lugarejo que não comporta seus sonhos. Uma centelha de fantasia deflagrou na moça o desejo de ser artista. Com o namorado Antônio foi treinando cenas de amor, momentos que serviam de combustível para a partida programada. Nele, a libido era tentada. Nesse jogo, quanto mais ensaiavam cenas de amor, Karina nutria o sonho de atuar. Antônio ficava deslavadamente embevecido pela namorada.
Até o fatídico e miserável dia em que tudo mudou, quando Karina resolveu partir. Antônio saiu em busca de um determinado elemento chamado mundo, para não perder a amada. Levou para a cidade luzes e câmeras da mídia, colocou o mundo em Nordestina. Para chamar a atenção, Antônio anuncia possuir capacidade de atravessar as paredes do futuro.
A Máquina é uma parábola sobre o tempo-espaço, uma viagem do tempo para manter a amada amarrada ao coração. A máquina que aniquila muitos sonhos, serve também de instrumento para reconstruir outros. A proposta dos encenadores discute o poder de interferência da mídia na vida até do mais pacato cidadão, germinando sonhos de grandeza e transformando-os, quando é conveniente, em notícia. Vive-se num mundo da informação e showbusiness, caminho sonhado por Karina. Pela via da fantasia, Antônio interfere na vida dos cidadãos de forma contundente, plantando um futuro fictício para ser perseguido.
O vibrante espetáculo reverencia a importância do ator como contador história. Mas a funcionalidade de toda a concepção cênica de A Máquina surpreende. Tudo é simétrico, sempre jogando com quatro e seus múltiplos. Quatro são os atores fazendo um único personagem, quatro são os módulos destinados à platéia e as entradas e saídas. O palco giratório resultou numa solução cenográfica perfeita. Outra sacada habilidosa de João Falcão se revelou na sincronicidade dos quatro atores ao interpretarem e interagirem como Antônios, sendo um e todos ao mesmo tempo. Karina e Antônio movidos pela paixão não esqueceram de questionar: mas existir, a que será que se destina?





