A Máquina do Poeta
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de maio de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Juvenal Pereira/divulgaçãoAdemir Assunção: Não sei a que gênero ele (o livro) pertenceO escritor e jornalista Ademir Assunção está com um novo livro na praça, A Máquina Peluda, da Ateliê Editorial. No momento ele se ocupa com o lançamento da obra, que teve início em Curitiba, continuou por São Paulo na semana passada e prossegue neste final de semana em Londrina. Cidade obrigatória, lugar onde tudo teve início, antes do jornalista mudar-se para a capital paranaense e em seguida fixar-se em São Paulo.
O livro é recheado de personagens reais. Ele começa com Pero Vaz de Caminha escrevendo ao rei de Portugal, relatando as delícias da terra recém-descoberta. Ao fumar um cigarro de erva aromática, enrolada em palha de milho, o missivista sente-se viajar no tempo. Nesses passeios encontra Paulo Leminski, Dorival Caymmi, Gregório de Matos, Gerald Thomaz, Franz Kafka.
A segunda parte da obra, Roteiros em Órbita, é a poesia travestida em prosa, sem comprometimento do escritor com o enredo. A última parte, Código 999, é feita de diálogos. As conversas acabam construindo a narrativa. Aqui é onde o livro mais se aproxima do conto, explica Assunção. No mais é tudo incógnita. Não sei a que gênero ele pertence.
Nas páginas de A Máquina Peluda aparecem ainda citações de Daniela Mercury, Roberto Marinho, Cid Moreira. No mundo real entram personagens de ficção como os piratas do Capitão Gancho, o coelho Pernalonga, o urso Catatau. Eu poderia criar um personagem e dar um nome qualquer, mas prefiro assim, pessoas que você identifica no mundo real, explica o escritor.
A mistura do real com a ficção é puramente intencional. Com um volume cada vez maior de informações e apelos, o homem é bombardeado por todos os lados. O excesso leva a uma certa confusão sobre o que é real ou imaginário.
Então um garoto de oito anos pensa em dar um tiro no colega, pensando que não faz mal. No dia seguinte, no próximo capítulo ele está vivo de novo. Acho que isso está criando um limite muito perigoso, comenta o autor.
A banalização da vida, que ganhou proporções estarrecedoras em nossos dias, incomoda Ademir Assunção. É o inverso do que está sendo pregado por toda uma ideologia que diz que estamos buscando a sofisticação. Que sofisticação? A gente vê barbárie, afirma. Embora não seja uma temática do livro, esta preocupação atravessa suas páginas:
- Não foi à toa que escolhi como epígrafe de abertura do livro uma frase de Jorge Luiz Borges que diz: Terei vivido a minha vida, ou tudo não passou de um sonho? Mas eu acho que estamos chegando a um grande pesadelo.
PoesiaApesar de ser em prosa, num encadeamento de narrativas, A Máquina Peluda é uma continuidade da poesia, um exercício da palavra. Ademir Assunção confessa ser essencialmente poeta. Não me sinto como contador de histórias. Tanto que paralelo a este livro continuei escrevendo poesia, nunca parei.
Pode ser que em 1998 venha aí um novo volume de poemas. Setenta por cento do livro está pronto, mas ainda vou trabalhar mais, conta. O gosto pelo poema toma direções contrárias, abrangendo outros campos e linguagens. Na música, por exemplo, fez parcerias com Itamar Assumpção e Edvaldo Santana. Tenho interesse em trabalhar com vídeo, mas a base é sempre a poesia. Isto é que me interessa.
Sobre sua predileção poética, sintetiza: Gosto do que é bom. Isso significa dizer que vai de Roberto Piva aos irmãos Augusto e Álvaro de Campos, passando por Rimbaud, Baudelaire até Rodrigo Garcia. Incluindo os poetas provençais do século 13.
Não foi lendo poesia que Ademir Assunção tomou o caminho de poeta. Lembra-se que quando criança era atraído por Caetano Veloso quando cantava Alegria, Alegria. Eu ficava espantado. Aquelas palavras eram muito próximas, mas a gente não ouvia isso normalmente.
No colégio, passou a detestar tudo que dizia respeito ao gênero, teve um bloqueio praticamente intransponível na adolescência. Talvez pela maneira como a poesia era ensinada, a obrigação de entender aqueles textos que os professores passavam para a gente, ter que recitar. Eu detestava, lembra o poeta.
O interesse pelas letras foi despertado novamente ao ouvir a guitarra de Jimmy Hendrix. Só escrevendo poderia colocar para fora sua admiração pela eletricidade do som, tudo aquilo que mexia com suas emoções. Foi aí que caíram em suas mãos os versos de Torquato Neto e Paulo Leminski. Desenhou-se um novo mundo, e nada mais voltou a ser o mesmo.
Provincianismo nacionalA poética brasileira vai bem, muito bem, na opinião de Ademir. Há riqueza e variedade no que se produz, mas a sua divulgação é restrita. Isso é muito provinciano, dispara o poeta. Tem um pequeno grupo que usa os jornais, principalmente a Folha de São Paulo, de maneira muito restritiva. Esse grupo tem uma visão muito limitada da poesia, como se ela fosse só aquela esfera que está dentro da visão que eles julgam correta. Acho isso muito limitado.
Escrevem-se e editam-se muito mais livros do que a imprensa pública, comenta o escritor. Mesmo selecionando apenas o que há de melhor, ainda assim aquilo que sai na imprensa é mínimo. São falsas, portanto, as críticas de que nada acontece no Brasil, que está tudo parado.
Os canais de produção continuam muito ativos, tanto em termos de quantidade, como de qualidade, continua Assunção. O que está bloqueado são os canais de difusão. E nisso as pessoas que trabalham com esses canais é que estão falhando.
Por também ser jornalista, ele se sente inteiramente à vontade em suas críticas. Ano passado aconteceu em São Paulo um projeto chamado Poesia 96, com mais de 100 sessões realizadas num auditório todas as segundas, quartas e sextas-feiras. A cada noite subiam ao palco dois poetas que liam seus textos e dois críticos comentavam esses autores. Vi coisas fantásticas. Não saiu uma linha nos jornais, queixa-se Assunção.
Poemas e paulicéiaOs versos rabiscados em Londrina, modificados em Curitiba transformaram-se de vez em São Paulo. Sua poesia hoje é extremamente urbana, diz o poeta. Sem ambicionar láureas acadêmicas (se vierem tudo bem), seu interesse primeiro é o de fazer o que ele chama de poesia viva. Então o fato de estar no maior centro brasileiro e um dos maiores do mundo, acabou por influenciá-lo decisivamente.
A geografia humana, a enxurrada de informações, os acontecimentos que se sucedem aos milhares, simultaneamente, e o isolamento, a solidão no meio disso tudo acabaram refletindo-se nas letras, na temática de sua escrita. No meu caso, mais na linguagem, diz. Por fim, a poesia é uma esperança? A poesia é uma reserva ecológica. Uma possibilidade de respirar no meio de tanta poluição, responde.
q Máquina Peluda - de Ademir Assunção. Lançamento hoje, às 21 horas, no bar Valentino (Av. Bandeirantes, 61, fone 323-0791), em Londrina.
Amanhã, a partir das 19 horas, na Livraria Rosa do Povo (Av. Higienópolis, 602, fone 321-5691), em Londrina.


