A MÁQUINA DE ABRAÇO
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Apertar a mão de outra pessoa e dizer oi olhando-a nos olhos parece um ato extremamente comum. Mas existem pessoas que não conseguem realizar tal ato, nem com o maior dos esforços. Olhar para um céu estrelado e ficar maravilhado com sua grandiosidade parece uma experiência que qualquer pessoa pode vivenciar. Mas existem pessoas que não conseguem sentir absolutamente nada olhando tal paisagem, apenas considerá-la mentalmente bela, nada mais. O sentimento de abraçar e beijar a pessoa amada parece algo que todos estão dispostos e desejosos a viver. Mas existem pessoas que consideram isso uma coisa improvável, alheias a seus sentimentos.
Existem pessoas que são capazes de entender mentalmente coisas consideradas normais e necessárias ao ser humano, mas não são capazes de senti-las. Temple Grandin é pessoa assim. Como autista, possui uma maneira própria de se relacionar com o mundo, uma maneira própria de revelar ao mundo uma capacidade peculiar de existência.
Temple Grandin escreveu a primeira e única autobiografia de um autista. Um relato existencial inédito da vida sob o foco de visão autista. Publicado originalmente nos Estados Unidos em 1986, o livro Uma Menina Estranha (Emergence: Labeled Autistic) acaba de receber sua edição brasileira pela Cia. Das Letras.
Uma Menina Estranha não é um relato voltado para um restrito grupo de interessados (familiares, médicos e psicólogos) por uma enfermidade que atinge uma pequena parte da população, mas um relato surpreendente que retira, literalmente, o chão dos pés da segurança da normalidade.
O relato de Temple, escrito em parceria com a jornalista norte-americana Margaret M. Scariano, dá um nó nos conceitos normais e habituais de emoções, principalmente de carinho e aconchego. Ainda bebê, a pequena Temple rejeitava o colo e o carinho da mãe e de qualquer outra pessoa. O aconchego provocava desconforto, uma dor inexplicável. Esse sintoma atravessou toda sua infância, juventude e idade adulta. Na realidade, a abundância do afeto era algo excessivo para seu sistema nervoso.
Agressiva e reclusa, não conseguiu viver em escolas normais, seguindo trajetória em escolas especiais. Sabia que não suportava o contato corporal, o carinho físico das pessoas, mas necessitava de algum contato tátil. Sonhando com uma máquina mágica que lhe oferecesse um carinho reconfortante, conheceu um aparelho chamado brete, onde bois são imobilizados para vacinação.
Imaginava um brete em que poderia entrar e receber um abraço físico. Sem perder tempo, construiu no quintal de sua casa um aparelho semelhante batizado-o de máquina de abraço. Passou a ler livros e livros sobre autismo e acabou optando pelo faculdade de psicologia. Com o tempo foi aprimorando a máquina de abraço, comprovando seu valor terapêutico, tornando-a mais eficiente, mais confortável e com variações de pressão.
A princípio não entendia como um aparelho que forçava um animal a
submeter-se também podia ser o instrumento que gerava amor pelo semelhante humano. Sozinha, Temple Grandin constatou que necessitava de contato tátil, de carinho, mas não oriundo do ser humano. Autistas afirmam sentirem uma espécie de amor frio com relação ao mundo e as pessoas. Podem perfeitamente compreender intelectualmente sentimentos como o amor, mas não conseguem senti-los como a maioria das pessoas. Aí surge a pergunta: de que maneira um sentimento universal como o amor pode ser determinado por fatores neurológicos?
Muito se fala de crianças autistas e muito pouco de adultos autistas. O fato é que uma criança autista, ao crescer, se tornará um adulto autista. Temple cresceu e, após dois cursos universitários, passou a se dedicar ao que mais gostava, cuidar de animais. Hoje, uma profissional bem-sucedida, é responsável por revolucionários projetos de currais e matadouros. Solitária, sem nunca ter namorado uma pessoa, direcionou todo sua vida para o trabalho.
O modo como Temple encara a criação de gado destinado ao abate é humanitária. Ela desenvolveu todo um sistema para que os animais sejam controlados da melhor maneira, sem sofrimento. Seus estudos se direcionaram em abater os animais com o mínimo de dor e constrangimento. A consultoria que presta a matadouros é tão detalhada que é categórica em afirmar que o funcionário que opera a pistola de ar comprimido no crânio dos animais - método mais eficiente, rápido e indolor de abate - deve ser trocado constantemente. Isso porque existe uma tendência de tal funcionário desenvolver, com o tempo, uma certo prazer em matar os animais. Nesse estágio, sentindo prazer em matar, quanto mais sofrimento o animal demonstrar mais satisfação o executante terá. Assim, um simples operário assume o papel de carrasco sádico. De maneira paradoxal, o trabalho de Temple em promover a morte de animais com mínimo de dor é sua maneira de oferecer afeto.
Vai mais além. Vê uma forte correlação entre a maneira como determinados grupos sociais tratam os animais e como tratam os deficientes. Afirma que em lugares onde há pena de morte, ocorre o pior tratamento a animais e deficientes. A correlação pode-se estender: a maneira como são tratados os presos, os doentes, os velhos e os pobres está relacionada a como se trata o meio ambiente.
Temple é tema de um dos textos do neurologista Oliver Sacks no livro Um Antropólogo em Marte - Sete Histórias Paradoxais (Companhia das Letras, 1995). O próprio título é uma frase de Temple Grandin. Indagada por Sacks da maneira como sentia as relações humanas, respondeu que entendia as emoções simples, fortes e universais mas que ficava confusa com os jogos emocionais em que as pessoas se envolviam: A maior parte do tempo eu me sinto como um antropólogo em Marte.
O relato de Temple Grandin em Uma Menina Estranha e o texto de Oliver Sacks em Um Antropólogo em Marte são complementares. As informações se cruzam favorecendo uma compreensão mais ampla do universo autista e suas representações. Sobre a máquina de abraço, por exemplo, Sacks aponta sua essência da seguinte forma: Não é apenas prazer e relaxamento que Temple alcança em sua máquina mas um sentimento pelos outros. Enquanto fica na máquina, ela diz, seus pensamentos dirigem-se com frequência para sua mãe, sua tia predileta, seus professores. Sente o amor deles por ela, e o dela por eles. A máquina abre uma porta para o mundo emocional que de outro modo continuaria fechado, e lhe permite, praticamente a ensina a entrar em comunhão com os outros.
Até hoje Temple mantém sua invenção em seu quarto para sessões de abraços diárias. A máquina também vem sendo utilizada em nível experimental em outros autistas. Bem instalada em seu próprio mundo, após muitas batalhas e tempestades, é firme em dizer que se pudesse estalar os dedos e deixar de ser autista, não faria, porque então não seria mais eu - o autismo é parte do que eu sou. Sua visão é que seu processo autista pode ser associado a algo de valor e faz disso uma espécie de salva-vidas.
O testemunho de Temple não deve ser utilizado para que os normais tenham pena de doentes, deficientes e inválidos. Deve ser utilizado para ajudar na compreensão da própria normalidade. As formas de vida são praticamente infinitas, assim como são infinitas as maneiras de se relacionar com ela.
Uma Menina Estranha - Autobiografia de Uma Autista de Temple Grandin e Margaret M. Scariano, Editora Cia. Das Letras, tradução de Sergio Flaksman, 196 páginas, R$ 22,50.
Um Antropólogo em Marte - Sete Histórias Paradoxais de Oliver Sacks, Editora Companhia das Letras, tradução de Bernardo Carvalho, 336 páginas, R$ 31,00.





