A mão feminina na conservação do planeta
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 1998
Érika Pelegrino 
Frear o processo de destruição do Planeta só será possível ao substituirmos a estrutura competitiva do sistema patriarcal pela solidariedade e partilha, lei que imperava no início dos tempos. A idéia foi defendida pela escritora e jornalista, a feminista Rose Marie Muraro, que esteve em Londrina no último dia 2 para fazer palestra sobre A Mulher e a Crise Civilizatória no Final do Milênio.
Segundo a feminista, em seu livro Homem, Mulher - Início de Uma Nova Era, Para o Planeta sobreviver, é necessário que a mulher traga para o domínio público os valores arcaicos da solidariedade e da partilha, que só ela, na cultura patriarcal moderna, conserva e não o homem.
A competitividade como se dá atualmente e a industrialização acelerada podem fazer elevar a temperatura média do oceano, com o aumento do dióxido de caborno na alta atmosfera. Isto fará com que os países do extremo sul da Ásia, sejam submergidos em menos de 20 anos. E, pouco a pouco, toda a costa marítima do sul do planeta..., de acordo com Muraro.
Reverter este processo depende de criar futuros adultos que tragam uma nova visão de mundo, realmente democrática e não competitiva. Isto é possível com o homem dividindo o trabalho doméstico com a mulher e esta entrando no mercado de trabalho, na iniciativa privada, na vida política.
Enquanto os homens não trocarem fraldas e as mulheres não ocuparem espaço no domínio público não surgirão os novos adultos capazes de substituir a competitividade pela solidariedade. Muraro afirma que durante a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, 182 chefes de estado bateram nas mesmas teclas: solidariedade e partilha.
Ou mudam-se os modelos de desenvolvimento baseados na competitividade e na defesa dos interesses dos mais poderosos em detrimento de todos, ou, em menos de 50 anos, chegaremos ao ponto do não retorno da destruição do Planeta.
A idéia de que só é possível mudar o macro a partir do micro, não é nova. Um país em que a mulher ainda não é tratada com igualdade na vida política, no mercado de trabalho, no desempenho das funções domésticas, não conseguirá o seu desenvolvimento, na análise de Muraro. Ou se mexe nas relações humanas de um país ou não se tem desenvolvimento, afirma. Uma democracia real começa a se delinear nas negociações e divisão de trabalho a partir das trocas de fraldas, das mamadeiras, das roupas para lavar. Filhos criados apenas pela mãe, sem a participação do pai nas tarefas domésticas, crescem com uma visão de mundo do opressor-oprimido, diz.
Ainda em seu livro, Muraro explica nas famílias tradicionais -em que o pai vive no domínio público (trabalhando) e a mulher no privado (cuidando da casa) - a criança vê, desde que nasce, o pai mandando na mãe. Por isso, a criança crescida vem a achar natural uma sociedade em que uns mandam e outros obedecem, isto é, uma sociedade patriarcal e de classes.
Quando as mulheres saem de casa para ocupar outros espaços os homens assumem junto com elas a educação das crianças, os filhos conhecem desde o nascimento e durante todo o seu crescimento a relação democrática-pluralista. Os filhos do novo homem e da nova mulher, de acordo com Muraro serão menos competitivos.
Teremos homens e mulheres mais integrados, cada um desenvolvendo dentro de si tanto as qualidades masculinas, mentais, quanto as femininas, afetivas, afirma Muraro. Nesta nova família o natural será a existência de diversos centros de poder. Será sempre natural para as crianças, nascidas na nova família, uma sociedade pluralista, em que as coisas são decididas por consenso e onde há vez e voz para todos, e, portanto, rodízio de lideranças.
De acordo com o raciocínio de Muraro, desta forma, o poder deixa de ser um privilégio pessoal de mandar autoritariamente e volta a ser um serviço, como no início dos tempos. Diante deste contexto, a feminista faz uma relação entre a condição da mulher e a crise econômica asiática, por exemplo. Se só um estado verdadeiramente democrático pode influir no mercado econômico, um país onde a mulher é colocada em condição inferior não poderá se desenvolver.
Há mais de cinco anos denuncio a exclusão das mulheres no processo de desenvolvimento dos chamados Tigres Asiáticos, afirma. A sua tese é fundamentada no fato de que a opressão das mulheres não coaduna com o processo de globalização em curso. Em países onde as mulheres ainda se mantêm em condição inferior a do homem, tanto no mercado de trabalho, quanto na política e nas tarefas domésticas, as relações patrão-empregado ainda são estabelecidas em sistema feudal.
O último senhor feudal que surgiu no Brasil foi Fernando Collor de Mello, afirma a feminista. A mulher ocupando espaço na política terá contribuições a oferecer como a solidariedade e a partilha, necessárias para a conservação do Planeta, que ela manteve devido à sua estrutura psíquica.
A mulher preserva os valores que formam a base da vida da espécie humana - cuidado com o outro, emoção, intuição, altruísmo. Só o macho criou outros valores que se mostraram, aliás, destrutivos- diz.
O movimento feminista precisa se organizar nos países do Terceiro Mundo. O Brasil, por exemplo, está em grande desvantagem com relação ao Estados Unidos, de acordo com Muraro: são 50 milhões de feministas lá para 10 mil aqui. Nos EUA, se você não é feminista não encontra nem marido. Porque o homem sabe que vai ter que sustentar a mulher, e ele não quer.
A mulher no Brasil recebe 57% do salário do homem. Na Europa e EUA, 80% do PIB é igual entre homens e mulheres. Ao ser comparado com o restante da América Latina, Rose Marie Muraro afirma que o movimento feminista no Brasil está mais avançado. Aqui o movimento começou 10 anos antes, mas 10 anos depois que nos EUA.
Nos Estados Unidos, a princípio, as multinacionais ganharam com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, possibilitando mão-de-obra mais barata. Hoje as mulheres, nos EUA, já estão lutando por meio período de trabalho, afirma a feminista.
O caminho é para o equilíbrio e o Brasil tem muito que amadurecer em termos de movimento feminista. A História irá dar as condições de amadurecimento, segundo Rose Marie. A História caminha apesar da gente. Assim como a vanguarda das mulheres caminhou, a globalização vai fazer com que a situação da mulher mude, analisa.


