Desde sua estreia como diretor em 2001, Paolo Sorrentino tornou-se um dos maiores autores do cinema italiano. Agora busca consolidar ainda mais seu legado com o filme mais recente “È Stata la Mano di Dio” (A Mão de Deus), representante oficial da Itália na disputa (já adiada de 27 de março para não se sabe quando) do Oscar de 2022 e disponível para assinantes Netflix. É seu filme mais pessoal em duas décadas de carreira. Ele faz aqui uma epifania felliniana, relembrando sua juventude em uma espécie de conto semiautobiográfico sobre um adolescente napolitano (o próprio) que atingiu a maioridade em meados da década de 1980. Os fãs de futebol entenderão o título do filme, claro, como uma referência ao infame gol de Diego Maradona na Copa do Mundo de 1986. A chegada a Nápoles da lenda argentina do futebol em 1984 define para sempre o curso da vida de um jovem.

"A Mão de Deus": filme faz referência ao gol de mão de Maradona e retrata a família italiana de forma trágica e engraçada
"A Mão de Deus": filme faz referência ao gol de mão de Maradona e retrata a família italiana de forma trágica e engraçada | Foto: Divulgação

Conheci bem de perto a trajetória de Sorrentino como ambicioso concorrente em Cannes a partir de 2004, com o drama psicológico “As Consequências do Amor”; seguiram-se “O Divo”, drama político (2008), a cinebiografia fake “Aqui é o Meu Lugar” (2011), o merguho cultural e artistico de “A Grande Beleza” (Oscar e Globo de Ouro em 2014) e “A Juventude” (2015), mergulho-reflexão na terceira idade. Diante de “A Mão de Deus”, não há dúvida: o filme representa uma guinada importante na carreira do diretor. Este é um filme simples e claro em seu esquema e intenções, sem os traços de ambiguidade, profundidade esquemática e excessos de autoria que na maioria de seus títulos anteriores derrapavam em desgoverno para um barroco sem volta.

De maneira providencialmente brilhante, Sorrentino usa motivos de realismo mágico para representar o conflito entre realidade e ficção, retratando de forma bela o crescimento vital (o ator Filippo Scotti, notável, é o adolescente que observa e interage como se Nápoles fosse Rimini, em tocante homenagem à porçao felliniana do espectador cinéfilo). O diretor mudou seu cinema para filmar a tragédia de sua infância, mergulhando sem medo e com extrema delicadeza em seu próprio passado íntimo e doloroso, abrindo seu baú de memórias agridoces e compartilhando com o espectador um exemplo notável de drama contido.

“È Stata la Mano di Dio” é engraçado, delicado e emocionante. Italianamente engraçado, porque com a mesma clareza que observa seus personagens saborosos mais à frente o filme os vê com uma profundidade natural e não estudada – esta é a melhor leitura para “è stata la eredità di Fellini”. O filme deixa sem argumentos quem considerava que Paolo Sorrentino tinha o estilo (ou estilismo, vale dizer) como elemento privilegiado em detrimento da essência, do conteúdo. Da vida.

Uma homenagem muito pessoal à família disfuncional do realizador, que passa por uma autópsia extensiva à sociedade ao redor. Pode não ser o melhor filme dele (embora seja muito bom). E o que se poderia rotular como o “Amarcord” de Sorrentino é isto, um colorido e espetacular afresco iconográfico em que o autor, sem ironia ou sarcasmo, tenta dar sentido àquela saudade que não se esvai, aquela ferida na memória que ainda dói. Coisas quase sempre impossíveis para quem não tem o dom da mirada universal.

mockup