A Mancha Roxa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A linguagem crua, a violência e a galeria de marginalizados que tanto marcaram a dramaturgia de Plínio Marcos (1935-1999) já estavam incorporadas ao universo teatral brasileiro no final da década de 80, quando ele escreveu a peça A Mancha Roxa.
Embora sem o prestígio de obras anteriores, a peça trouxe temas polêmicos à tona, como a Aids, o sistema penitenciário brasileiro e a indiferença do Estado com a saúde pública. Agora, o texto foi um dos dois escolhidos pela Cia Funcart de Teatro para retornar aos palcos como uma homenagem londrinense ao aniversário de 10 anos de morte do autor a outra peça foi Dois Perdidos numa Noite Suja, apresentada na cidade no último fim de semana.
A Mancha Roxa abre temporada hoje, às 21h, no Teatro Zaqueu de Melo. O espetáculo é ambientado num presídio feminino, onde estão encarceradas seis mulheres. Na cena inicial, uma das detentas aplica uma dose de drogas nas colegas. Ao amarrar a borracha no braço de uma delas, ela vê uma mancha roxa, um dos sintomas da Aids. A descoberta da doença, de fácil transmissão, cria de imediato uma atmosfera tensa.
Todas sabem que o mal passa pelo sangue e ali a agulha da seringa é a mesma para as sessões de pico. Com medo do contágio, as demais mulheres pretendem eliminar a companheira soropositiva, que é defendida pela amante. A partir daí, irrompem outros conflitos nas celas. Esse é um espetáculo de difícil realização porque há uma sobrecarga de violência e o risco de cair na vulgaridade pelo excesso de palavrões e cenas de nudez, explica Ribeiro.
O diretor lembra que muitas atrizes brasileiras não conseguiram dar conta da peça em outras montagens pelo País. É que, em cena, elas precisam se expor de forma grotesca. Para prepará-las, fizemos uma maratona de 60 dias com quatro horas de exercícios e ensaios. Algumas tiveram treinamento de boxe. Aqui mesmo, uma atriz se negou a participar depois de ler o texto. As que toparam, enfrentaram suas personagens com pulso e despojamento. Mesmo assim, após os treinamentos e ensaios, elas sempre ficaram esgostadas emocionalmente, conta.
O elenco tem Ana Carolina Ribeiro, Carolina Gambarini, Daniele Dias, Edna Aguiar, Fernanda Fernandes, Lauren Alves e Simone Andrade. Para Ribeiro, a questão da Aids continua atual e importante: Se por um lado, as pessoas contaminadas estejam hoje em dia com padrão de vida bem melhor do que na época em que a peça foi escrita, por outro lado muitas pessoas estão se cuidando menos. O perigo ainda existe e a prevenção é necessária, assinala.
Ele destaca também o tema da responsabilidade do Estado em relação aos detentos. Para o próprio Plínio Marcos, o poder público deveria zelar pela integridade do indivíduo, a partir do momento em que ele é afastado por efeito de sentença do convívio social.


