Foram dezoito anos de carreira. Durante o período em que esteve nos palcos, Elis Regina (1945-1982) reinou como a mais intensa da cantoras brasileiras. ''Cantar, para mim, é sacerdócio. O resto é o resto'', dizia. Unanimidade como artista, ela dividia opiniões em sua vida pessoal, dado seu temperamento oscilante.
Gravou 27 álbuns, 14 compactos simples e seis duplos. Embora não gostasse, o rótulo de ''cantora de TV'' a perseguiu durante os melhores anos de sua trajetória. O programa ''O Fino da Bossa'', que comandou ao lado de Jair Rodrigues na TV Record entre 1965 e 1967, foi o responsável pela tarja.
Por meio dele, a notável intérprete gaúcha bilhava nas quartas-feiras à noite encarnando o papel de anfitriã de artistas consagrados e iniciantes. Repleto de duetos e encontros, ''O Fino da Bossa'' tinha como pano de fundo um ambiente político efervescente, que direcionava os artistas para o engajamento social.
Elis incursionou pela canção de protesto, rivalizando no gênero com Nara Leão, então porta-voz de compositores do morro. De matiz nacionalista, suas críticas atacavam a dominação estrangeira não poupando sequer a Jovem Guarda, a qual considerava um movimento alienante. Chegou a organizar uma passeata estridente contra a guitarra elétrica.
Nessa época, ''O Fino da Bossa'' começava a perder audiência para um programa de jovem guarda apresentado por Roberto Carlos e Erasmo Carlos. No final dos anos 60, ao vencer um festival de MPB com a canção ''Arrastão'', ela foi apelidada de ''eliscóptero'' pelo jeito com que movia os braços para cima e para baixo.
Na ocasião, o cronista Sérgio Porto afirmou não saber se estava diante de ''uma cantora que nada ou de uma nadadora que canta''. Mais tarde, público e crítica se renderiam à alquimia entre técnica e emoção que ela demonstraria nos palcos em espetáculo antológicos como ''Falso Brilhante'', seu maior sucesso.
Elis revelou grandes compositores. Foi a primeira gravar o desconhecido baiano Gilberto Gil, assim como o mineiro Milton Nascimento. Descobriu também João Bosco, Aldir Blanc e Belchior. Quando morreu, no dia 19 de janeiro de 1982, provocou um choque nacional. O velório atraiu 25 mil fãs, amigos e parentes que entoaram suas canções no Teatro Bandeirantes, em São Paulo.
Idolatrada por gerações, ela é fonte de inspiração para novas cantoras, como provam os shows-tributos programados para este mês em Londrina.(N.S.)

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