A mais amada das brincadeiras
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de janeiro de 2014
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
E 2014 chegou, o ano que tem som, imagem, sabor, cheiro e textura de futebol no Brasil. Após mais de seis décadas, a mais popular modalidade esportiva do planeta volta a viver seu ápice falando português, com a realização da Copa do Mundo pela segunda vez no país de Pelé.
Para isso, enfrentamos todos os nossos demônios: a infraestrutura precária, a lentidão para grandes obras, o desmazelo com a probidade, o contraponto de tantas carências em relação ao custo bilionário dos estádios, o pesadelo de uma nova derrota em casa. O Mundial é um desafio que nos mobiliza, mas, sobretudo, nos apavora.
Já as 260 páginas de "Futebol-Arte Do Oiapoque ao Chuí" (Grão Editora, 2013), do fotógrafo paulistano Caio Vilela, nos encantam. Registros de uma viagem atrás da bola, uma jornada de nove meses, 27 unidades da federação, em busca da essência da relação lúdica do brasileiro com seu esporte favorito.
A obra tem texto do também experiente jornalista Eduardo Petta e é prefaciada por Zico, o magistral camisa 10 que foi um dos grandes peladeiros do subúrbio carioca de Quintino.
Vilela e seus parceiros nos ajudam a entender melhor por que o futebol se tornou um elemento cultural no Brasil. A cada foto, percebemos a intensidade e o fascínio do jogo, quantas sensações giram de lá para cá, o quanto a fantasia de chutar alguma coisa na direção certa ou errada nos alegra e nos deprime. A pelada - brincadeira de crianças e adultos, de homens e mulheres, de ricos e pobres revela nosso mundo feito de improviso e tenacidade.
Nada para um brasileiro quando a bola - ou qualquer outro objeto que deslize no chão ou no ar - se movimenta, dizem as imagens. Nem a maré alta, nem a chuva, nem a irregularidade do terreno, nem o espaço pouco, nem a fome de pão e de justiça. O brasileiro tem um compromisso inabalável com este jogo como poucos povos têm. Assim é mais fácil entender por que somos o país do futebol, mesmo quando não somos o país da Copa. "Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma", escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, lembrado no livro, cuja edição é bilíngue, com textos também em inglês.
"Foram oito incursões pelo interior do País, vendo a bola rolar nos 27 estados, diante de paisagens e monumentos simbólicos de cada um deles ou em locais remotos e difíceis de reconhecer", conta o fotógrafo em um trecho do livro.
Assim como os peladeiros, em momento algum Vilela fez corpo mole. Para captar a essência de cada embate, driblou vários adversários. "Subi a favela da Rocinha na garupa de um moto-táxi, rodei dunas no litoral cearense dirigindo um buggy, escalei montanhas no Tocantins e no Rio Grande do Sul para enxergar as traves de um ponto de vista privilegiado", conta em um capítulo reservado aos bastidores.
O álbum é separado por regiões. No capítulo reservado ao Sul (aliás, a foto escolhida para a capa registra uma pelada na periferia de Porto Alegre), figuram o bate-bola de meninos e meninas islâmicos em uma aula de educação física bem próxima à mesquita de Foz do Iguaçu, uma pelada em um acampamento de cigano em São José dos Pinhais e um jogo na quadra de areia do Jardim Botânico de Curitiba.
Mas há muito mais na coleção de boleiros: montanhistas em um acampamento na base do Monte Roraima; o jogo vigoroso no fim de tarde à margem do rio Xapuri, no Acre; garotos desafiando os limites estreitos de uma palafita no Amapá; catraieiros à beira do rio Oiapoque, bem próximos à ponte que liga o Brasil à Guiana Francesa. Ainda no Norte, Vilela revela pequenos sem-terra disputando uma partida em um acampamento de Marabá (PA).
No Nordeste, há um flagrante de uma improvável disputa de futebol ladeira acima na periferia de Penedo (AL); meninos transformando coco em bola na frente de uma igreja na Praia do Forte (BA); uma pelada no entardecer no meio da rua, com a silhueta da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE); uma bola dividida na praia do Cachorro, no arquipélago de Fernando de Noronha (PE); uma disputa poeirenta na caatinga, em Cabaceiras (PB); marmanjos duelando na areia, próximos do Farol da Barra, em Salvador.
No Centro-Oeste, destaque para o peixinho de um kalunga, no quilombo Engenho 2, em Goiás, e para uma roda de bobinho em plena Esplanada dos Ministérios em Brasília.
Poderosas também são as imagens de um jogo no estacionamento da Basílica Nacional de Aparecida (SP) e de outro em uma quadra no alto do Morro do Cantagalo, de onde se vê o mar de Ipanema. Há ainda imagem de uma bola rolando no esplendor da Barra, num dia de praia lotada; duas crianças brincando em um chafariz histórico de Tiradentes (MG); uma partida dominical reunindo trabalhadores no Parque Dom Pedro II, no coração da capital paulista. Na Vila Beatriz, também em São Paulo, garotos jogam na rua enquanto uma placa de trânsito avisa que as pelejas são frequentes ali.
Em dado momento, o autor do magnífico trabalho lamenta: "Imagine quantos gols geniais de Tostão, Pelé, Zico ou Ronaldo foram feitos sobre a terra batida, sem que ninguém filmasse para exibir na TV. Quisera eu ter visto cada um deles em ação durante a infância e poder registrar seu brilho com a mesma energia com que registrei o que mostro aos leitores deste livro".


