Um dos projetos pessoais do cineasta Steven Spielberg, o filme ''As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne'' - que pré-estreia nas salas Lumière e no Multiplex Catuaí nesta sexta - finalmente ganha vida nos cinemas brasileiro. Amigo pessoal do cartunista belga Hergé (1907-1983), Spielberg tinha o desejo de adaptar para as telas do cinema as aventuras do jovem personagem jornalista desde 1981, quando leu uma crítica comparando Tintim ao arqueólogo Indiana Jones, personagem que virou ícone nas telas do cinema.
O maior problema que o cineasta americano encontrava no projeto era uma maneira de reproduzir fielmente, com atores reais, o espírito descontraído e aventureiro dos quadrinhos. A solução foi encontrada na parceria com Peter Jackson (responsável pelos efeitos de ''O Senhor dos Anéis''), que sugeriu a Spielberg o caminho da animação 3D.
Não é preciso muitos minutos dentro do cinema para perceber que a estratégia funcionou. Logo na primeira cena de ''O Segredo de Licorne'', é possível observar a magia que a mais alta tecnologia de ''motion capture'' (que captura movimentos de atores reais) proporciona para o espectador: mesmo com a proposta de fugir do realismo exagerado, a textura das peles, olhos e cabelos dos personagens, e até detalhes como as caudas dos ratos e o fucinho do cãozinho Milou conseguem atingir uma nitidez impressionante, merecedora de uma indicação ao Oscar.
A aventura começa com Tintim (Jamie Bell) comprando por acaso, em uma feira de antiguidades, uma réplica em miniatura de um misterioso navio, que foi vendido como herança de uma antiga familia de marinheiros. Logo, o repórter começa a descobrir que o artefato é mais valioso do que parece, e que esconde muitos segredos. Com a ajuda de seu inseparável cãozinho Milou e de dois policiais atrapalhados, os gêmeos Thompson e Thompson (Simon Pegg e Nick Frost), o jornalista se descobre no meio de uma alucinante 'caça ao tesouro', que acaba envolvendo o bêbado Capitão Haddock (Andy Serkis) e uma grande fortuna desaparecida.
No decorrer do filme, Spielberg demonstra por que é considerado um mestre da arte cinematográfica, exibindo suas habilidades como diretor e seguindo, em Tintim, o ritmo e movimentos de câmera que lembram o do primeiro filme do Indiana Jones (''Caçadores da Arca Perdida''). Dessa maneira, o cineasta consegue logo encantar o público, intercalando a ação frenética com os mistérios que montam o quebra-cabeças do tesouro perdido.
Sem perder o humor característico dos quadrinhos de Hergé, o ritmo de Tintim também é pontuado por algumas fascinantes 'gags' visuais, que acontecem em segundo plano: repare nos passarinhos voando em volta da cabeça de um atordoado ladrão, ou na disputa por um sanduíche entre o cãozinho Milou e um rato. Apostando, acima de tudo, na diversão, o filme também é repleto de pequenas homenagens ao original de Hergé, além de uma foto do próprio Spielberg (que pode ser visto de relance) vestido como um sheik árabe.
Na verdade, tudo no longa parece ser feito com tanto carinho que até o espectador mais emburrado vai ceder ao encanto da história, torcendo irremediavelmente pela segurança de Tintim e de seus amigos. Sem dúvida, Spielberg (que já dirigiu filmes como E.T. e Jurassic Park) ainda é dono de um talento especial, capaz de despertar a criança dentro de cada um de nós.

(* o repórter assistiu à versão legendada do filme, em 35mm)

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