A mágica pelo avesso
Zeca Corrêa Leite
Quando um mágico destrói a ilusão que há na platéia, ele não é mais mágico. É uma pessoa que matou o sonho, o encanto. Como a gente pode chamar de ilusionista quem visa acabar com a arte da ilusão? O questionamento feito pelo mágico Danton Queirollo tem endereço certo e óbvio Mister M, o personagem que detonou centenas de truques de magia, e que estará dia 2 de setembro no Ginásio do Círculo Militar, em Curitiba.
Danton Queirollo, membro da Associação dos Mágicos Paranaenses, vê na figura mascarada uma presença nefasta. Toda a comunidade artística foi atingida, diz ele. Dos grandes aos pequenos, nenhum passou incólume ao prejuízo. Faço shows diariamente. Alguns números eu perdi, não poderei mais repetir. Mas tenho condições de resgatar outros, afirma.
Em pior situação estão os profissionais que atuam na periferia, e foram completamente podados. Ao desvendar os segredos dos aparelhos, Mister M fechou caminhos, entende Queirollo. Para ele a capacidade criativa dos mágicos é sem fim, mas o aparelho é cuidado como filho. O material sai caro:
Há colegas que cobram R$ 2,00, R$ 3,00 o ingresso. Quanto terão que trabalhar para recuperar a perda? Quando e quanto conseguirão economizar para adquirir um aparelho novo?
Danton Queirollo afirma que a entidade do qual faz parte não fará qualquer manifestação à presença do norte-americano. Continuaremos trabalhando normalmente, mesmo porque ele não acaba com a magia. Aliás, MM é visto por ele não como um ilusionista, mas como um competente apresentador de aparelhos.
Otimista, diz que isto é coisa passageira, mesmo com tudo que ela representa de nocivo. Não passa de uma onda, tem vida efêmera e feliz e infelizmente o brasileiro possui memória curta. Daqui a pouco resta o passado, embora o prejuízo continue ainda por muito tempo. A esperança, lembra Queirollo, está no público infantil: Enquanto houver criança aplaudindo e o ser humano sonhando, a magia não acaba.
É um traidor, dispara Toni, outro mágico de Curitiba. O artista é da opinião de que o que MM está fazendo não tem volta. Por onde passa deixa a inutilidade do seu trabalho. Ele está matando o mistério; todos foram diretamente afetados.
Uma espécie de lei ética corre entre a comunidade quando um colega chega na cidade para apresentar um espetáculo, os artistas se movimentam no sentido de ir assisti-lo. É um prestígio velado da classe. A vinda de Mister M passará em branco. Vamos ignorar sua presença.
A Associação dos Mágicos Paranaenses não cogitou em nenhum momento tomar qualquer medida sobre o espetáculo, como fizeram os colegas de Belo Horizonte. A instituição entende que ocorrências como a protagonizada pelos mineiros serve de promoção a MM.
Os mágicos entrevistados pela Folha2 disseram que ouviram falar do show que está em turnê pelo Brasil é um espetáculo de magia, sem desvendar os truques. Ele destruiu a mágica pela televisão, argumenta Antenor Delfino Bonifácio, presidente da associação da categoria, conhecido como Mágico Delfus.
Sobre o MM ilusionista não usa de meias palavras:
Mister M é muito ruim. Ele era um profissional de quinta categoria que entrou na arte movido pelo oportunismo. A primeira coisa que o mágico aprende é a ética do segredo.
O quadro que o Fantástico apresenta aos domingos, caiu como um golpe mortal para, pelo menos, três mágicos curitibanos, no último domingo. O aparelho do zig-zag truque em que a mulher é cortada em várias partes do corpo custa cerca de R$ 3 mil reais. Terá que ser aposentado, porque perdeu a graça para a platéia.
É a mesma coisa que você ir ao cinema assistir a um filme policial. Você está na fila e alguém passa com um folheto contando o final da trama. Quem vai entrar na sala sabendo o fim? As consequências daquilo que MM está fazendo permanecerão por muito tempo. Às vezes, até mesmo quem nunca o viu na televisão, chegará para um mágico em plena função e vai dizer: Mister M já mostrou como é o truque, finaliza o Mágico Delfus.





