Elisa Marília CarneiroPaisagem da janelaA vista da serra por todos os lados é deslumbrante. Logo ao amanhecer as nuvens descem as encostas e vêm deitar na mata ainda úmida de orvalho.Imagine um lugar onde o primeiro pensamento que você tem é: ali ninguém conseguiu chegar. Um esconderijo como esse fica o município de Aiuruoca - encravado na Serra da Mantiqueira, ao Sul de Minas Gerais. Mesmo parecendo quase impossível, a localização não poderia ser mais fácil. Aiuruoca, que na linguagem indígena significa Casa do Papagaio, fica no meio do caminho das tão tumultuadas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a cerca de 300 quilômetros de cada uma. A cidade mineira mais próxima é Caxambu, a apenas 48 quilöômetros.
Quem passa pelo lugar nunca mais esquece o azul do céu - que é diferente, especial -, além da simpatia dos moradores e a pureza das nascentes d’água. Em Aiuruoca até a qualidade do pensamento fica melhor. A dificuldade da chegada por estrada de terra é compensada com a sensação de que valeu a pena. Ninguém percebe o desconforto da viagem diante de tanta beleza.
A vista da serra por todos os lados é deslumbrante. Logo ao amanhecer as nuvens descem as encostas e vêm deitar na mata ainda úmida de orvalho. Durante o dia o encantamento fica por conta da paisagem e das minas d’ água que se encontram por onde quer que se ande. À noite os olhos se extasiam com o céu, quando as estrelas parecem saudar a serra. Alguns moradores da região fazem questão de contribuir para a paz do local e optaram por não ter energia elétrica em suas casas. O que torna ainda mais surpreendente o modo de vida desses mineiros tão especiais.

Elisa Marília CarneiroEdilson Faria, em frente à pousada Aiuá: turistas o ano todo vindos das mais diversas regiões do País Aiuá! Um bom exemplo é a rotina do dono da Pousada Aiuá, Edilson Sebastião de Almeida Faria. Ele e o filho Chien, de 22 anos, vivem há três anos na região. Os dois ajudaram a construir a pousada e recebem os visitantes sempre com uma interjeição de alegria: Aiuá!
Construída ao pé da serra, a pousada recebe durante o ano todo, turistas vindos das mais diversas regiões do País. ‘‘O que mais encanta é a beleza da serra, a variedade de pássaros e a água’’, reconhece Edilson. Na pousada se consome a água colhida diretamente de uma das milhares de minas da Serra da Mantiqueira. ‘‘Para os mais condicionados, mantemos um filtro na sala de refeições mas raramente é usado. Como não usamos energia elétrica, os alimentos são sempre colhidos no dia e a água para os banhos é aquecida a gás’’, tranquiliza.
Além das verduras e legumes fresquinhos a pousada oferece pão caseiro quentinho e um queijo que só os mineiros sabem fazer. Em Aiuruoca, a economia gira em torno dos laticínios que produzem o queijo do tipo parmesão, melhor comercializado nas cidades. ‘‘A grande maioria dos habitantes vive da agricultura de subsistência. Mesmo sendo considerada uma região de bacia leiteira, os produtores de Aiuruoca recebem apenas R$ 0,26 por litro de leite vendido’’, comenta Edilson.
Preocupado com a sobrevivência dos moradores, Edilson está testando a produção de morangos sem agrotóxicos. ‘‘A idéia é oferecer mais uma opção de renda para as famílias que pelas dificuldades de sobrevivência já pensam em ir embora’’, alerta. Os planos incluem uma fábrica de doces para melhor aproveitar as frutas nativas.
Fugindo do dízimo Até há pouco tempo a extração de madeira como o Jacarandá e a Araucária eram a maior fonte de renda. A proibição do corte de madeira deixou as comunidades sem opção de sobrevivência. A cidade, que já conheceu a riqueza, foi fundada no início do século 17 pelos que percorriam o caminho do ouro encontrado nos rios. ‘‘Por aqui passavam os exploradores que fugiam do dízimo cobrado pelo reino. Era a rota entre Minas Gerais e São Paulo’’, conta Edilson.
A história do lugar pode ser ouvida em um ‘dedo de prosa’ com os moradores
que preferem se acomodar de cócoras na beira da estrada para apreciar o movimento das aves que voltam para seus ninhos numa divertida gritaria de fim de tarde. O espetáculo da natureza é de tirar o föôlego principalmente dos que estão acostumados às grandes metrópoles.

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