A magia da dança flamenca
A dança flamenca, com suas castanholas, sapateados e ritmo contagiante será uma das atrações da 1ª Mostra de Atividades Artísticas da Academia Ensaio, que acontece hoje, às 21 horas, no Teatro Marista em Londrina. Serão apresentadas 12 coreografias, sob coordenação da professora Ana Cristina Oltramari.
Bailarina clássica, Ana Cristina começou a se dedicar à dança espanhola há seis anos, em Curitiba. Ela lembra, porém, que a experiência com ballet clássico não é condição fundamental para quem quiser iniciar-se no flamenco. A princípio, qualquer um pode aprender, desde crianças até grupos de terceira idade. As bailarinas que sobem ao palco hoje começaram a dançar há pouco mais de um ano e hoje já conseguem, inclusive, manipular as castanholas, que, é bom esclarecer, são um instrumento musical como outro qualquer.
Mário CesarA bailarina Ana Cristina Oltramari toca as castanholas, pouco conhecidas como instrumento musicalA maioria das pessoas não sabe, mas elas não são tocadas aleatoriamente. Existem inclusive partituras para serem executadas, com notas musicais e tudo, esclarece Ana Cristina, que no ano que vem pretende ir para a Espanha fazer cursos de aperfeiçoamento. Segundo a bailarina, a dança flamenca envolve muitos ritmos. Seriam necessários anos e anos de dedicação para conseguir trabalhar com todos eles. Entre os ritmos mais trabalhados estão as sevillanas, soleares, bullerias, martinente, tangos, alegrias e rumbas, que são originários de diferentes regiões da Espanha.
O flamenco é uma arte que recebeu a influência de várias culturas. Trazida pelos ciganos da Índia, Egito e países árabes, foi no início uma criação espontânea que se praticava em círculos fechados, como ritos familiares e tribais. A maioria dos historiadores atribui a origem dos ciganos flamencos à Índia. Segundo esta tese, uns penetraram na Europa e foram para os Países Bálticos, outros para o Egito, entrando pela costa da África, penetrando na Península Ibérica durante o domínio árabe, para concentrar-se finalmente na região de Andaluzia.
Mas foi na Catalúnia e sobretudo em Barcelona que os ciganos foram generosamente recebidos, instalando-se nas imediações da cidade. Os catalões sempre demonstraram simpatia e aplaudiram com entusiasmo os espetáculos de flamenco. Foi assim que surgiram os cafés-cantantes e os tablados, templos da dança no período entre as duas guerras.
O flamenco foi elevado à condição de espetáculo artístico graças ao célebre empresário Sergei Diaghilev que, impressionado pelas possibilidades teatrais inesgotáveis desta arte, incluiu um quadro flamenco numa das apresentações do Ballet Russe, em maio de 1921 no Théatre de La Gayté Lyrique em Paris. Diaghilev quis manter a total autenticidade do cuadro, acrescentando apenas, como elementos de estilização, as maquetes, figurinos e cenários encomendados a Picasso.
Outro mestre das artes plásticas, Salvador Dali, também deu sua contribuição à dança dos ciganos, criando, em 1943, os cenários do famoso espetáculo Café de Chinistas, montado pelo empresário Sol Hurok no Metropolitan de Nova York. No campo da poesia, a força do flamenco serviu, por inúmeras vezes, como fonte de inspiração. A coletânea Poemas do Canto Jondo, de Garcia Lorca, e as obras de Juan Jimenez, Villalón, Rafael Alberti e José Maria Péman são alguns exemplos.
No cinema, esta dança marcada pelos movimentos sensuais, onde a força e a tensão se concentram na percussão dos pés, foi imortalizada pela trilogia de Carlos Saura (Carmen, El Amor Brujo e Bodas de Sangre), além de filmes como El Misterio del Flamenco, de Edgar Neville, e Los Tarantos.
A bailarina Ana Cristina Oltramari afirma que o flamenco é, acima de tudo, uma dança muito expressiva, tanto no que diz respeito à alegria como ao sofrimento. Não se trata apenas da sensualidade ligada à sexualidade, completa. Ela explica também que, em síntese, a dança flamenca pode ser dividida em dois diferentes grupos: o Grande Bale ou Jondo e o Baile Chico.
O primeiro engloba danças de caráter solene, de extrema gravidade, como por exemplo la cana, el polo, soleares, martinente. As danças mais leves, picantes, como a alegria, buleria, rumba, garrotin e tanguillo pertencem ao Baile Chico. Originalmente o repertório de dança flamenca restringia-se apenas ao zapateado, tango, soleares, farruca e garrotin.
Ao som das guitarras e das modulações do canto que oscilam entre a melancolia e a sensualidade, a revolta e a resignação, os bailarinos do flamenco exprimem-se principalmente pelos movimentos dos braços, que têm importância fundamental. Eles dão ao baile seu caráter autêntico de rito secular.
Na mulher, os braços executam movimentos ondulantes, insinuantes, sensuais, onde os dedos afastados desenham arabescos crispados. No homem, o jogo de braços deve ser sóbrio, hierático, contido, desenhando movimentos quase que geométricos. Tudo é tão detalhado que mesmo quando estão paradas, as bailarinas permanecem tocando castanholas com os braços arcados, em postura específica.
Os números de dança flamenca que serão apresentados na 1ª Mostra de Atividades Artísticas contam com a participação do guitarrista André Siqueira e do bailarino Fábio Lourenço, além das bailarinas da Academia. O espetáculo será composto ainda por apresentações de jazz e capoeira do Grupo Maculelê.
1º Mostra de Atividades Artísticas da Academia Ensaio - hoje, às 21 horas, no Teatro Marista, em Londrina. Convites a R$ 4,00, à venda na Academia Ensaio (Av. Maringá, 556, 1º andar, sala 2), Vice & Versa Confecções (Av. Maringá, 725), Restaurante Sabor à Mesa (Rua Goiás, 1377) ou na bilheteria do teatro. Mais informações pelo (043) 327-1086.Dorico da SilvaSensualidade à flor da pele: bailarinas ensaiam para o espetáculo, ao som das sevillanasSilvana Leão





