Itália, fim do século 19, vilarejo de Corleone. O garoto Vito Andolini perde seu pai. Seu irmão, Paolo, tenta vingar a família, mas acaba assassinado. E agora Vito deve morrer pois também tentará vingar a perda do pai. A mãe de Vito morre para que ele possa fugir. Vito vai para os EUA. Vive em um orfanato, passa a trabalhar em um armazém e logo percebe que há outras leis que regem aquela sociedade. Não paga Fanucci, o criminoso que domina a sua rua e se torna Don Corleone, ou melhor, Don Vito Corleone.
Essa é a trajetória do fundador da maior família de mafiosos já registrada em película, os Corleone. Se você achava que Howard Hawks tinha mostrado os gângsters tal qual eles são em ''Scarface'' (Scarface: A Shame of a Nation, EUA, 1930), Francis Ford Coppola o fez mudar de idéia. Não há nada mais profundo e complexo, em se tratando de bastidores do mundo do crime, do que a novela que Mario Puzo escreveu nos idos 60, vendendo milhares de exemplares, adaptada por Coppola na maior trilogia já feita em Hollywood: ''O Poderoso Chefão'' (The Godfather).
A Paramount presenteia agora os fãs da série com um lançamento de cinco DVDs, contendo extras especiais. O disco um traz a primeira produção (1972), incluindo uma versão com comentários do diretor. Os discos dois e três trazem o segundo capítulo da trilogia (1974), não se esquecendo dos comentários de Coppola. O disco quatro traz o terceiro episódio (1991), possibilitando também os comentários. E o disco cinco, o único completamente inédito, oferece uma gama de surpresas. Além de cenas inéditas das três produções, há story boards (desenhos de produção) de toda a trilogia, trailers originais para o cinema das três partes, entrevistas com o diretor de fotografia Gordon Willis, o diretor de arte Dean Tavoularis, e com Coppola, ao lado do co-roteirista Mario Puzo.
Um documentário realizado há dez anos pela Zoetrope Productions, a produtora de Coppola, mostra como foi desenvolvido o último capítulo da saga dos Corleone e os bastidores das duas primeiras produções. Uma fita contendo uma conversa de Coppola com Nino Rota revela o exato instante em que o compositor italiano mostrou o seu tema para ''The Godfather''. A música depois recebeu arranjos do pai do cineasta, o flautista Carmine Coppola, e é um dos temas imortais que Rota trouxe à sétima arte, a exemplo de suas parcerias com Federico Fellini (''La Strada'', ''Amarcord'') e Luchino Visconti (''Rocco i suoi Fratelli'' e ''Il Gattopardo''). Há também uma árvore genealógica, que explicita todas as ramificações da família Corleone. E, finalmente, uma entrevista com Coppola em que ele explica como adaptou o romance de Mario Puzo.
Se você achava que antes era impossível estudar cinema distante de um grande centro produtor de filmes ou de uma universidade com curso específico, estava enganado. Essa edição em cinco discos de ''The Godfather'' detalha todo o processo criativo por que Coppola passou para construir uma outra história da América.
Ele tinha pouco mais de trinta anos quando a Paramount Pictures resolveu convidá-lo para adaptar a obra ''O Chefão''. Ele sabia que era um livro conhecido, havia vendido muito em poucos anos, e que continha muitas tramas a serem relatadas. Que Coppola fez? Retirou página por página de seu exemplar do livro de Puzo e colou, uma por uma, em um sulfite depois anexado a um fichário. Assim ele teria espaço para comentar e discutir as cenas que considerasse importantes.
Coppola fazia perguntas relevantes sobre o que levaria para película. Qual a essência dessa cena? O que não posso deixar de contar? Como posso errar nessa sequência? Como devo proceder para que nada saia errado? Ensinamentos que ele trouxe da época em que estudava cinema na UCLA, em Los Angeles, e que pôde apresentar em seu primeiro grande filme, ''Caminhos Mal Traçados'', de 1969.
Bem, mas o que Coppola descobriu, ao investigar personalidades como Vito Corleone (Marlon Brando na fase adulta e Robert de Niro na adolescência), Michael Corleone (Al Pacino), Sonny Corleone (James Caan), Fredo Corleone (John Cazale), Connie Corleone (Talia Shire) e Vincenzo Corleone (Andy Garcia)? O que impulsionava essa família?
Coppola tomou o cuidado que um historiador deve tomar. Não se posicionou na narrativa, ao menos ideologicamente. O estudo do diretor guia-se pela personalidade mais intrigante da família, Michael. Inicialmente ele recusa qualquer envolvimento com os negócios dos Corleone, preferindo estudar na universidade e posteriormente lutar pelos EUA na segunda guerra mundial. Era um jovem idealista, que se algum dia assumisse o poder na família iria legalizar todos os negócios. Entretanto seu pai é atacado, e Michael recebe de um policial americano um soco amargo, que marca a sua face por um bom tempo. Estava dado o pontapé inicial para a introdução de Michael a um universo que ele conhecia superficialmente, o crime organizado.
O intelectualismo de Michael, a paixão por sua noiva Kay (Diane Keaton), nada o impede de vingar seu pai e assassinar a sangue frio Sollozo e o policial que havia lhe batido. Essa é a cena crucial da primeira parte, em que os olhos de Michael rodopiam até o instante em que ele sai de transe e dispara o primeiro tiro.
Por todo o resto da vida de Michael, e nas duas sequências de ''The Godfather'', ele irá tentar recuperar essa inocência perdida. Por mais de uma vez ele tenta legalizar os negócios da família e é impedido. Acaba adotando a fórmula que Nicolau Maquiavel havia sugerido aos governantes em ''O Príncipe'' - se você quiser comandar alguém, aja com temor, não com amor; o ser humano só respeita o temor.
Diferente do que ocorria com Don Vito, os mafiosos não adoram Michael, apenas o temem. E Michael sabe disso. Anos se passam e ele procura o reconhecimento da igreja, firmando um acordo de milhões de dólares com o banco controlado pelo Vaticano. Esse episódio não era para se chamar ''O Poderoso Chefão - Parte III'', e sim, ''A Morte de Michael Corleone''. Entretanto, o estúdio não quis ouvir Coppola e Puzo e acabaram retirando o título que traria a essência desse episódio. Michael está mais amável, quer o amor dos filhos e não busca mais inimizades. Surge um sobrinho bastardo, Vincenco, filho de Sonny, que pode assumir os negócios e se tornar o novo Don. Michael não hesita. Em um momento crucial de toda a trilogia, quando ele está velando o corpo de Dom Tomasino (seu conselheiro), Pacino dá o tom ideal para as questões do personagem: ''Onde errei? Será que não ouvi meu coração? Ou errei por ouvir a minha mente?''. Esse dilema de Michael introduz em ''O Poderoso Chefão'' tons típicos da tragédia grega. A trilogia passa a ser um registro de como uma alma pode se perder entre as necessidades materiais e a impetuosidade do destino. De como um homem pode errar por meio do amor, e amar por meio de tantas mortes.
Coppola havia estudado teatro antes de se apaixonar por cinema. Sua predileção por Shakespeare se evidencia nas continuações que preparou para ''O Poderoso Chefão''. Michael ordena o assassinato do irmão, perde a esposa, os filhos, mas mantém os negócios da família. O sobrinho bastardo assume o poder, quando o poder espiritual está próximo de redimir Michael diante da sociedade. O fim, tão solene quanto trágico, traz o grito de morte mais suave e, ao mesmo tempo, ensurdecedor da história do cinema. Quando morre a filha de Michael, (Sofia Coppola, filha do diretor), um silêncio abate o filme e o espectador. É o fim de um homem, destinado a vitórias que o afastam da graça divina. A tragédia humana, em síntese.

Trilogia ''O Poderoso Chefão'' (The Godfather, EUA, 1972,1974,1991, 723 minutos), de Francis Ford Coppola. Lançamento da Paramount. Preço médio de R$ 169,00, pacote com cinco DVDs.

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