A persuasiva eloquência da maternidade. É diante deste material que deve se colocar o espectador quando assistir “Minha Filha” (Figlia Mia, 2018), drama italiano hodierno e atualíssimo que chega nesta quinta (9) ao circuito local como forma instigante de apresentar vínculos reais entre mães e filhos, funcionais ou disfuncionais.

O verão dos 10 anos da menina Vittoria (Sara Casu) vai ser muito especial, porque ela será desafiada a odiar, amar e perdoar uma de suas mães, a biológica e a que a criou. A tímida Vittoria tem um relacionamento muito próximo com sua amorosa mãe Tina, protótipo da mãe italiana (Valeria Golino). Mas surge em cena e se aproxima cada vez mais da garota a mãe de sangue, a baladeira Angelica (Alba Rohrwacher), num encontro tão revelador quanto doloroso.

'Minha Filha': filme traz uma jovem desafiada a amar e perdoar a mãe biológica e a adotiva
'Minha Filha': filme traz uma jovem desafiada a amar e perdoar a mãe biológica e a adotiva | Foto: Reprodução

Duas mulheres de personalidades bem diversas. Dois caminhos para complicar a vida da jovem dividida. Uma história de maternidade imperfeita e laços inextricáveis.

A história se passa na Sardenha, mas pouco se vê das paisagens paradisíacas que normalmente surgem nos postais dessa turística região ao sul da Itália. A realizadora romana Laura Bispuri decidiu mostrar uma outra Sardenha, junto ao mar, privilegiando rochas , montanhas e falésias ,um “paese” profundo, habitado por pescadores humildes e casas batidas de cimento, um pano de fundo arcaico como elemento de comunidade simples. Nada a perder, felizmente tudo a ganhar para enriquecer a dramaturgia. A esplêndida fotografia do bósnio Vladan Radovic, mesmo diante de locações menos óbvias (ou até por isso), é frequentemente de tirar o fôlego.

A diretora Bispuri não dará jamais uma resposta definitiva, distribuindo informações afetivas (ou não) ao longo da narrativa, discorrendo sobre a busca empreendida por Vittoria: uma estranha cumplicidade com as duas mulheres, essas figuras maternas que vivem e amam de formas tão diferente. Através da originalidade do discurso, e de um humor muito ingênuo, “Minha Filha” levanta uma série de questões que não poderiam ser mais pertinentes em que o conceito de família tem se ampliado, deixando para trás o agora limitado núcleo pai-mãe. Afinal, o que faz alguém família? E nesse contexto, o que significam os filhos? Sem ambições professorais, Laura Bispuri passa a limpo a simetria familiar e desconstrói o que deveriam ser laços de afeto; e nos adverte que, assim como existem as paisagens hostis que nos mostra, nunca há respostas simples quanto aos sentimentos.

“Minha Filha” com certeza dramatiza o conflito lugar-comum e ideologicamente explorado entre natureza e criação, mas o que torna o drama genuinamente emocionante e memorável é que ele nunca se transforma em “case” sobre a maternidade. Ao admitir a complexidade e moldar seus personagens como diferenciados, realistas, profundamente vividos e falíveis, a diretora evita advogar com “justiça” por qualquer dos lados. O desempenho refinado e naturalista do trio de atrizes funciona como a melhor blindagem contra o risco do inoportuno melodrama. E ao enfatizar a conciliação e a aceitação sobre a divisão e a exceção, o filme desafia os papeis familiares estabelecidos e as percepções-clichês de imaturidade emocional encontradas em pré-adolescentes.

Um feliz Dia das Mães. E dos filhos delas.

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