A mãe dos encantados
Os que estão no coração da gente não morrem. Como a vida continua para dentro do peito, dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber, da atriz Aneci, e de Ana Marcelina, todos mortos (Ana Marcelina morreu aos 12 anos, vítima de leucemia), mantém a missão das mães - cuidar dos filhos, mesmo que agora estejam acomodados no coração. Eles não morreram, se encantaram, corrige.
A frase da ficção de Guimarães Rosa assume a realidade com dona Lúcia, que veio a Curitiba no último final de semana prestigiar a exibição do curta-metragem A Mãe, que concorreu na categoria documental no domingo, último dia do 3º Festival de Cinema e Vídeo. No filme dirigido por Fernando Bélens e Umbelino Brasil, ela fala diretamente ao espectador sobre sua vida. Desfia as memórias enquanto visita os lugares por onde andou no passado, fala sobre o relacionamento com Glauber e como ficou sua vida após a morte do cineasta.
Aos 80 anos - nasceu em 16 de janeiro de 1919 -, a protagonista de A Mãe tem aparência de 65, no máximo. Bem-humorada, faceira, disposta, dona Lúcia vai a todos os festivais para os quais é convidada. Faz parte do objetivo de sua vida, que é a de manter viva a presença de Glauber. Satisfeita, diz que se sente feliz porque em todo o mundo comemora-se o aniversário de 60 anos do nascimento do filho.
Dona Lúcia não economiza energia para trabalhar em torno da preservação do Acervo Tempo Glauber, espaço onde estão reunidos cerca de 50 mil documentos sobre o cineasta e escritor, resgatados por toda parte, seja no Brasil ou no exterior.
A sede do memorial é uma casa simples de três cômodos na Rua Sorocaba, 190, no bairro carioca de Botafogo. Com dona Lúcia estão uma funcionária da limpeza e outro da admistração. Ninguém mais, por absoluta falta de recursos.
O imóvel foi cedido pelo governo de José Sarney; era uma ruína que foi recuperada graças a um judeu da Withe Martins, que ouviu sua história numa palestra em Paris. Porém, quando Fernando Collor assumiu o poder, tirou todos os benefícios dispensados pelo governo anterior. É um lugar despojado, mas recebo pessoas do Brasil inteiro e do exterior, comenta.
O filme A Mãe, embora esteja desenvolvendo carreira como curta-metragem é, na verdade, um longa. O formato sintetizado vem sendo mostrado no País, porque a versão integral, montada na Alemanha, está retida na Alfândega. Os produtores estão em busca de recursos para efetuar a liberação.
É uma situação esquisita, mas é a realidade. Igualmente irônico é ouvir de dona Lúcia a revelação de que o filho que andava com a câmera de cinema para cima e para baixo nunca fez um registro seu, nem mesmo em fotografia. Um dia vou fazer um filme com você, ele costumava dizer. Porém, ela estava presente em todas as etapas das montagens, fosse bancando a produção ou cuidando dos figurinos.
O amor que unia a família levou-a a vender sua casa (uma casa boa) para Glauber rodar A Idade da Terra, seu último filme. Eu era rica e fiquei pobre, comenta sem autocomiseração. Brincando, diz que ele vai ter que saldar a dívida contraída, afinal esse tinha sido o trato.
Ficar sem a casa não foi nada. No curto período de três anos morreram Glauber, o marido e Aneci (que caiu no fosso do elevador, no prédio onde morava, no Rio de Janeiro). Sobrou-lhe uma quarta filha como se diz, de coração. O coração não aguentou - a mãe hoje traz cinco pontes de safena.
No momento mais trágico da dor, perdeu o sentido da vida. O branco era preto, o amarelo era preto, nada estava claro para mim. Orei muito a Deus, tenho muita fé, e pedi algo que me desse sentido para viver. Quando nasceu uma bisneta, dona Lúcia renasceu para a existência - juntou forças e decidiu ir atrás da obra de Glauber, espalhada pelo mundo.
Era necessário atender ao filho que lhe escrevera um bilhete, certo dia, dizendo que dormiria em paz se um dia fosse juntado tudo que ele tinha feito. A princípio a mãe não entendeu a mensagem. Pensei que estivesse falando de um sono normal, mas ele sabia que ia morrer. Ele sabia das coisas com antecedência.
Minha vida é muito cheia de coisas boas, tive filhos maravilhosos. Convivi com eles pouco tempo, mas foi muito bom o tempo convivido. Agradeço a Deus por isso, fala. Sua história tem emoções e humor, e lugares transbordantes de lembranças e saudade.
O filme A Mãe começa em Vitória da Conquista (Bahia), cidade que viu nascer Ana Marcelina, Glauber e Aneci. Passa por localidades como Milagres e Buraquinho e outras tantas paragens onde Glauber fez locações de seus filmes. Foi bom voltar a andar por lá, mas foi doído. Toda vez que a gente fica recordando aquele trabalho bonito e sofrido, é doído demais. Mas entreguei meu coração a Deus e senti que Glauber e Aneci me ajudaram.
Dona Lúcia Rocha justifica a presença dos filhos em sua conversa, mas como falar de mim se não tocar nos filhos? Ela gerou ao mundo artistas, e se a menina que faleceu aos 12 anos tivesse vivido, com certeza teria sido cantora. Amante das artes, a senhora de 80 anos ainda hoje sabe de cor - e declama - 50 poemas de Castro Alves.
A esta altura da vida, tem um único medo, que seria uma morte a mais a se somar às outras: perder o acervo do filho famoso por falta de dinheiro. Enquanto pode, vai lutando. Cuidando da prole encantada.Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Dona Lúcia Rocha vai a todos os festivais de cinema para os quais é convidada, ela quer manter viva a imagem de GlauberZeca Corrêa Leite





