A Loira do Chapéu Rosa (de Raquel Cesar Sant'Anna)
Levantou-se. Não podia acreditar, aquilo era impossível. Chegou mais perto e constatou a mudança. A menina loira de chapéu rosa havia mudado de posição. Como podia ser, pinturas não se mexem. Observou o resto do quadro, tudo permanecia igual. Mas ela tinha certeza, a menina que antes se sentava na pedra, estava agora de pé e de costas, bem próxima à casinha no fundo.
Pasma, sentou-se novamente no sofá. Não era impressão sua, mas... não tinha explicação! Olhou novamente para o quadro e resolveu sair da sala. Pisou no corredor e parou estagnada. De onde vinha o gemido? O que era aquele som baixinho e angustiante? Parecia vir da parede, não, do quadro. Seria o choro da menina loira de chapéu rosa?
Teve medo de voltar para verificar. Entrou no quarto. Fechou a porta. Passavam-lhe tantas coisas pela cabeça! Quis chamar a empregada, mas a voz não saiu. Ouviu o barulho da batedeira que acabara de ser ligada na cozinha. Deitou-se, já não podia ouvir o choramingo. Encolheu-se, caiu no sono.
Acorde menina, vai se atrasar para o inglês!
Não respondeu. Enquanto se aprontava, pensava no ocorrido, e teve a certeza de que tudo fora um sonho. Se concentrou no cheirinho do bolo assado. Pegou a chave da porta e a do cadeado da bicicleta e se dirigiu ao elevador.
Tchau, Maria!
Desceu o degrauzinho da sala e olhou para a parede onde só se via a marca retangular do quadro que havia sido retirado.
Onde está o quadro da menina Maria?
Um amigo do seu pai veio buscar. Aquele que esteve aqui ontem. O homem se encantou com a pintura e seu pai acabou por presenteá-lo com ela.
Desceu o elevador pensando se tudo havia sido realmente um sonho. Já não tinha mais certeza. Subiu na bicicleta, olhou o relógio de pulso, estava mesmo atrasada.





