Luiza Dantas/Carta Z NotíciasBetty Faria: ‘‘Estou passando por uma fase bastante
positiva’’Betty Faria está eufórica. Afinal, 1997 marca o reencontro da atriz com as telenovelas globais, que ela abandonou há quatro anos, depois de viver a personagem Antônia em ‘‘De Corpo e Alma’’, de Aguinaldo Silva. Sempre acompanhada do cachorro Osnar e andando na ponta dos pés, a atriz não esconde o sorriso quando fala de Dona Mirandinha, personagem que vive em ‘‘A Indomada’’, também escrita por Silva.
Ela é uma juíza incorruptível e que se envolve com um personagem bem mais jovem, vivido por Licurgo Spínola. Com um sorriso que vai de orelha a orelha, a atriz demonstra, no jeito vagaroso e pausado de falar, que está bem centrada e vivendo um momento bastante proveitoso de sua carreira. ‘‘Estou passando por uma fase bastante positiva’’ - constata a atriz.
E não é sem conhecimento de causa que Betty chegou a esta conclusão. Afinal, ela viveu um momento profissional delicado há dois anos. Mais precisamente, quando assumiu o papel principal da novela ‘‘A Idade da Loba’’, na Band, e não obteve a repercussão desejada. ‘‘Tínhamos uma boa história nas mãos, mas a emissora não nos prestigiava’’ - relembra a atriz.
O acúmulo de experiências na tevê e o ingresso na filosofia budista foram alguns dos trunfos utilizados pela atriz para desenvolver o seu ofício com maior benevolência, segundo ela mesma atesta. ‘‘Aprendi a ser bem mais generosa com todos os companheiros de trabalho’’ - afirma.
E enquanto vai administrando a nova fase de sua vida, que também inclui o seu retorno ao cinema no filme ‘‘For All - Trampolim da Vitória’’, Betty demonstra o mesmo entusiasmo de uma estreante. Faz questão de ler e reler a sinopse de ‘‘A Indomada’’ e mergulha fundo na caracterização de sua personagem. Mesmo tendo de dividir as atenções com um elenco de estrelas, a atriz garante que não bate mais o pé para viver protagonistas. E que, de agora em diante, pretende explorar outros caminhos de interpretação.
Várias atrizes que já passaram dos 40 anos, assim como você, se dizem insatisfeitas por não serem mais escaladas para os principais papéis. O que você acha disso?
Betty Faria - Mas o que elas querem? Fazer papéis de filha? Isso não tem o menor cabimento. Esse tipo de declaração só pode partir de velhas invejosas. Em geral, as heroínas são realmente mais jovens. É lógico que há exceções. Em ‘‘A Idade da Loba’’, vivi o papel principal, porque a história girava em torno das mulheres quarentonas batalhadoras. Em ‘‘Tieta’’ também fui a protagonista, pois a trama se referia a uma mulher mais experiente. Mas esta não é a regra. E acho que é diferente no caso dos homens. Atores mais velhos que têm romances com menininhas são bem aceitos, mas atrizes mais velhas que têm casos com garotões continuam não sendo bem vistas. E o folhetim, no meu ponto de vista, é um retrato da sociedade em que a gente vive, sem a menor dúvida.
Não a incomoda o fato de não viver o papel principal em ‘‘A Indomada’’?
Betty Faria - Além de não me incomodar, acho também que não teria mais saco para interpretar uma protagonista. Já passei desta fase. É preciso entender que há outros papéis maravilhosos para desempenhar, que não só o de protagonista. Na história do cinema, por exemplo, vários atores desempenharam papéis belíssimos, mesmo depois de atingirem uma determinada idade. É o caso da Shirley MacLaine. Ela só conseguiu ganhar um Oscar em 1985, fazendo uma interpretação madura no papel de uma mãe, em ‘‘Laços de Ternura’’. Acredito até que estou no melhor momento da minha carreira. Hoje conheço bem melhor o meu ofício, domino com mais eficiência as técnicas de que disponho como atriz e também aprendi a ser mais generosa no contato com as pessoas.
Esse aprendizado ocorreu no mesmo período em que você saiu da Globo, após trabalhar em ‘‘De Corpo e Alma’’?
Betty Faria - Não teve nada a ver. Venho procurando me depurar internamente há bem mais tempo do que isso. Mas eu quero deixar claro que adorei fazer a personagem da Antônia, uma mulher que se divorciou do marido e que buscava um espaço próprio. Algumas pessoas até me paravam na rua para dizer que se identificavam com a personagem, porque sempre foram submissas como a Antônia. E outras, ao contrário, gritavam comigo para que eu tivesse mais amor próprio.
Como surgiu o convite para você retornar à emissora?
Betty Faria - O Paulo Ubiratan me chamou e me mostrou a sinopse da novela. E não tenho como negar que, logo de cara, gostei da personagem. E, além de tudo, já tinha trabalhado anteriormente com o Aguinaldo em ‘‘Partido Alto’’ e ‘‘Tieta’’, além dos especiais ‘‘Bandidos da Falange’’ e ‘‘Lili Carabina’’. Foram trabalhos que me deixaram satisfeita e em sintonia com a linguagem empregada pelo Aguinaldo Silva.
Betty Faria Você fez algum laboratório para compor a personagem Mirandinha?
Betty Faria - Quando me pedem para falar sobre laboratório, prefiro ser bem discreta e não falar se consultei fulano ou beltrano. Porque acho que isso pode acabar gerando uma expectativa no público. Mas, apesar da personagem não ser uma juíza-padrão, é evidente que tive de me ambientar com o universo jurídico. Estudei livros e tive algumas consultorias também. No início das gravações, inclusive, eu tinha bastante dificuldade em falar sobre contravenções penais, leis e códigos.
Como foi a sua experiência em trabalhar na novela ‘‘A Idade da Loba’’, da Band, seu primeiro trabalho na tevê após a saída da Globo?
Betty Faria - Acho que todos os profissionais que entraram nesse barco, como o Jayme Monjardim e o Marcos Schetchman, foram com a esperança de investir num novo núcleo de trabalho. Mas a Band não prestigiava a novela, não fazia anúncios. O que é verdadeiramente uma pena, porque a história era muito interessante e falava de um assunto bastante atual. O fato é que abrir um campo de trabalho numa emissora que não está nem aí para fazer publicidade do seu próprio produto é muito duro.
Na sua opinião, qual foi a explicação para o que aconteceu?
Betty Faria - Honestamente, não sei o que acontece na Band. É muito estranho. Logo no início eles já mudavam o horário. É uma pena porque é importante ter produções independentes. Graças a Deus que agora já temos muitos canais de tevê a cabo que já estão investindo em produções e abrindo o mercado para mais profissionais. O Guilherme Fontes é um que já vem fazendo trabalhos desvinculados das tradicionais emissoras.
Como foi a experiência de fazer uma novela em Portugal?
Betty Faria - Foi maravilhosa. Fui convidada pelo ator e diretor português Nicolau Breiner para viver uma vilã brasileira na novela que se chamava ‘‘Verão Quente’’. Mas, antes dessa novela, que foi exibida no final de 1993, já tinha o hábito de viajar para Lisboa e fazer alguns trabalhos por lá. O povo português é muito amoroso. Me lembro que, em 1995, estava passeando com o meu filho no Shopping das Amoreiras, em Lisboa, quando um velhinho veio se arrastando até mim. Quando eu acabei de assinar o autógrafo, ele chorou de emoção. Foi uma cena inesquecível. No entanto, sinto também que o povo português tem um certo preconceito para com as novelas que eles próprios produzem. E não sei o motivo disto, uma vez que lá existem excelentes atores.

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