Baseado em novela homônima, "Silêncio" relata viagem de dois padres jesuítas ao Japão feudal do século XVII
Baseado em novela homônima, "Silêncio" relata viagem de dois padres jesuítas ao Japão feudal do século XVII | Foto: Fotos:Divulgação



"A liturgia do silêncio" ou "A fé e suas implicações". Hesitei um tempo considerável entre os dois títulos para esta crítica ao novo épico de Martin Scorsese, em lançamento hoje no Brasil, Londrina inclusive. Vocês vão saber por que. Talvez assumindo um mea-culpa pelos excessos transgressivos de "O Lobo de Wall Street" (2013), o cineasta católico-apóstata-hollywoodiano fez viagem profunda aos confins de sua alma de ex-seminarista e ao coração das trevas (sim, aquelas mesmas de Joseph Conrad/Francis Ford Coppola/Apocalypse Now), inteiramente voltado para um outro extremo narrativo, aquele da contenção, do ritmo pausado e da reflexão intensa e complexa.

Baseado na novela homônima do católico Shusaku Endo – lida por Scorsese durante uma viagem de trem – "Silêncio" relata a viagem de dois padres jesuítas portugueses (Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe, vividos respectivamente por Andrew Garfield e Adam Driver) ao Japão feudal do século XVII a fim de tentar localizar seu mentor, o desaparecido padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Há notícias de que, pressionado e torturado por inquisidores japoneses, ele teria renunciado ao credo católico e estaria vivendo segundo os costumes do país. Aqui começa um longo e árduo périplo. Tanto para os jovens religiosos, que descobrem horrorizados o medo e a opressão que padecem os cristãos japoneses, como para o espectador que, ao longo de 159 minutos (que afinal parecem menos), atravessa um vale de dúvidas. Entre elas, a saber:existem crenças e religiões mais válidas que outras? Se pode seguir fiel a Deus embora renegando a Ele abertamente? É licita e justa a morte de um ou de cem homens somente para evitar a apostasia (ato de renunciar à fé) ou a blasfêmia ?

Filme mostra que as crenças podem se curvar, serem questionadas e modificadas
Filme mostra que as crenças podem se curvar, serem questionadas e modificadas



Não que seja um filme complicado (no melhor sentido) como alguns que o sueco Ingmar Bergman realizou sobre a perplexidade e angústia do ser humano, não especificamente católico, diante do silêncio de Deus. E também não é filme fácil feito de aventuras para arrebentar bilheterias (os números mundiais são bem discretos), mas uma típica de autor confeccionada, às vezes com sutileza, às vezes com impacto, para agitar mentes e espíritos. Entre belos planos (o fotógrafo Rodrigo Prieto foi a única nominação que o filme obteve para o Oscar) mais contemplativos e entre dolorosas sequências, a neblina (e a fumaça) que cobre vários momentos da narrativa talvez seja a melhor metáfora para desvendar as duas chaves que dominam o filme de ponta a ponta: a clandestinidade e o silêncio. A primeira, de quem pratica a religião na ilegalidade, às escondidas; e o silêncio de Deus, uma contundente ausência de resposta que põe à prova até mesmo a fé dos mais devotos. Apóstatas: renegando a Deus publicamente, mas mantendo a fé para consumo interno. Ou mártires: mortos em nome da fé, muitos ancorados numa fé cega, sem dúvidas ou questionamentos.

Não espere respostas fáceis, ou mesmo só respostas, deste filme que uma vez mais coloca Scorsese em ato de contrição ("A Última Tentação de Cristo", de 1988, foi outra jornada às trevas de seu coração "pecador"). O filme, este "Silêncio", não se declara por uma postura determinada. Deixa o público às voltas com o mistério e a mesma dúvida que inquietam o cineasta: crer ou não. A dialética que ele nos mostra para entender religião, fé e vida acabem por concluir que sim, ele crê. Mas Scorsese acrescenta: as crenças podem se curvar, serem questionadas e modificadas.

O elenco. O único problema é a eleição de seus dois atores principais. Andrew Garfield e Adam Driver, os jovens jesuítas, representam um modelo de inocência que resulta pouco adequado e causa certo distanciamento dramático. Já o seguimento japonês é sempre de alta tensão.

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