Torcedor do Fluminense desde que se lembra, Mário Lago teve os primeiros tempos de vida descritos assim, por Pedro Nava: ‘‘Vale dizer, em primeiro lugar, que Pedro Nava nasceu na Rua do Rezende, 150 - rua que é uma das costelas da dupla espinha dorsal Mem de Sá-Riachuelo - as granvias que cortam, em cheio, a Freguesia de Santo Antônio. Em Rezende e nas vizinhanças transcorreram a infância, mocidade e boêmia de Mário Lago: desde as aulas particulares no nº 158 à barra do dia na praça de Santa Luzia, às madrugadas sonoras da Lapa (‘‘A Lapa foi o chão de todos os meus passos’’) e do bando entrando por Marias e Vale e clamando dentro da noite por Manuel Bandeira, que dormia lá em cima, no seu andar, como hoje dorme, profundamente, ‘‘no fundo da treva, do chão, da cova’’.
Nava escreveu por ocasião do lançamento do primeiro livro de Mário, ‘‘Na Rolança do Tempo’’, em 1976, memorialista falando de memorialista. O livro de Mário era reminiscente da Freguesia de Santo Antônio e adjacências: ruas dos Inválidos, Henrique Valadares, Evaristo da Veiga, Passos, Lavradio, Relação - e os Arcos da Lapa. Ruas e arcos que ainda estão lá, mas num Rio de Janeiro que, segundo Mário Lago, não é mais o mesmo: ‘‘Atualmente, faço parte de uma minoria que nasceu aqui’’, disse, numa entrevista, em 1988. ‘‘Os cariocas da gema formam uma espécie de gueto, numa cidade que, hoje em dia, não tem quase cariocas.’’
Isso acontece com todas as cidades grandes e Mário Lago, embora (também) memorialista, não gostava de viver do passado. Citava Fernando Sabino, que fala da inevitabilidade da velhice: ‘‘Fiz um pacto com o tempo; não fujo dele, nem corro atrás. Chegamos a um acordo amigável.’’
Mário sempre gostou de acordos amigáveis. O tema de seu livro infantil, ‘‘O Monstrinho Medonhento’’, publicado em 1984, é esse. Os monstros estão poluindo mares, destruindo florestas, ameaçando as cidades. Um monstrinho diz: nasci monstro, mas não quero ser monstro. Para perceber, adiante, que não são os monstros que destróem as cidades, mas os homens, a quem é preciso ensinar bons modos - com bons modos e bons exemplos.
Escreveu, ao todo, 11 livros. Entre eles, ‘‘Bagaço de Beira-Estrada’’ e ‘‘16 Linhas Cravadas’’, este de contos, no qual impôs-se a limitação de contar histórias em exatas 16 linhas. Seus cinco filhos, com ajuda dos netos, fizeram publicar, em 1991, o livro ‘‘Segredos de Família’’ - suas histórias, poesias, lembranças de cada um. Em 1997, Gilberto Gil escreveu uma canção em sua homenagem, ‘‘O Mar e o Lago’’ (Mário, que não tinha intimidade com Gil, escreveu outra para o compositor baiano, retribuindo o mimo). No mesmo ano, Mônica Velloso publicou ‘‘Mário Lago - Boêmia e Política’’, biografia do artista múltiplo, comunista para sempre, cuja maior tristeza foi a demissão, por motivos políticos, da Rádio Nacional, em 1964.
Trabalhou nas rádios Panamericana, de São Paulo, depois na Bandeirantes e em seguida na Nacional, onde foi ator, narrador de novelas, roteirista, animador de auditório. Demitido, foi pedir emprego na TV Globo (já havia trabalhado em televisão, em 1954, na TV Tupi): ‘‘Pedi dinheiro emprestado para o Roberto Marinho, porque não tinha nenhum’’, conta. Conseguiu o empréstimo, tocou a vida, tornou-se uma das principais estrelas da emissora. Trabalhou nas novelas televisivas ‘‘Sheik de Agadir’’ (estreando), ‘‘Cuca Legal’’, ‘‘Pecado Capital’’, ‘‘Selva de Pedra’’, ‘‘O Casarão’’, ‘‘Cavalo de Aço’’, ‘‘Dancin’ Days’’, ‘‘O Salvador da Pátria’’, entre muitas; em minisséries como ‘‘O Tempo e o Vento’’ e ‘‘Hilda Furacão’’; fez comerciais, escreveu roteiros. Neste ano, fez participação especial em ‘‘O Clone’’. No cinema, trabalhou com Cacá Diegues (‘‘Os Herdeiros’’), Leon Hirschman (‘‘São Bernardo’’), Joaquim Pedro de Andrade (‘‘O Padre e a Moça’’) - são alguns dos vários títulos que estrelou.
Entre suas músicas mais conhecidas, além de ‘‘Amélia’’ e ‘‘Aurora’’, estão ‘‘Nada Além’’ (com Custódio Mesquita), ‘‘Dá-me Tuas Mãos’’ (com Roberto Martins), ‘‘É Tão Gostoso’’, seu ‘‘Moço’’ (com Chocolate), ‘‘Enquanto Houver Saudades’’ (com Custódio Mesquita), ‘‘Fracasso’’ (só dele), ‘‘Número Um’’ (com Benedito Lacerda), ‘‘Três Sorrisos’’ (com Chocolate) e ‘‘Atire a Primeira Pedra’’ (com Ataulfo Alves).
Esteve em cartaz, desde 1933, com o espetáculo ‘‘Causos e Canções’’ de Mário Lago, dirigido por Mário Lago Filho. Até o ano passado, era possível encontrá-lo, depois da apresentação, no meio de uma roda, contando histórias, num recanto boêmio qualquer de qualquer cidade que estivesse visitando.
(M.D.)

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