Marcel Proust, Gabriel Garcia Marquez, Luigi Pirandello, entre outros. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, essa lista de nomes presentes no 52º Festival de Cannes não faz parte de nenhuma antologia literária, mas refere-se aos nomes que emprestam a sua, digamos, co-autoria em diversos filmes na mostra competitiva e nas sessões paralelas Um Certain Regard, Semaine da la Critique e Quinzaine des Realizateurs. Desde ‘‘Le Temps Retrouv钒, do francês Marcel Proust, traduzida em imagens pelo chileno (mas radicado na França) Raoul Ruiz, até o conto ‘‘La Balia’’, obra do italiano Luigi Pirandello, o que não falta por aqui são textos literários adaptados para o cinema. E se Garcia Marquez sempre oferece alternativas e opções mais palatáveis para um bom roteirista, já Proust esteve sempre a desafiar mesmo os cineastas mais iluminados.
Complexa, intimidante, assustadora e afinal frustrante. Assim tem sido a empreitada de traduzir em imagens o colossal ‘‘À Procura do Tempo Perdido’’, monumento literário tão incensado quanto não lido, a exemplo do ‘‘Ulisses’’ de James Joyce. As falências precedentes a esta versão que agora concorre à Palma de Ouro saíram (ou simplesmente abortaram) de mãos ilustres. O alemão Volker Schlondorff tinha sido o único até agora a concretizar uma adaptação direta, em 1983, com ‘‘Um Amor de Swann’’ (do primeiro volume da obra). Um fracasso, com Alain Delon, Ornella Mutti, Jeremy Irons e Fanny Ardant. No ano seguinte, sem nenhuma repercussão crítica ou de público, o também alemão Percy Adlon realiza ‘‘Celeste’’, onde narra a vida de Celeste Albaret, a governanta de Proust. Mas as derrotas mais notáveis nem se transformaram em filmes. O inglês Joseph Losey trabalhou durante dez anos em um roteiro de ‘‘Guermantes’’. Nunca saiu do papel. René Clement também ficou sete anos às voltas com a ‘‘Recherche’’. Jamais conseguiu. E o caso mais lendário: Luchino Visconti se debruçou por vinte anos sobre a obra, dela extraindo pelo menos meia dúzia de roteiros. Um deles virou livro. E foi só. Alain Resnais, que muitos consideram habilitado para a tarefa por sua intimidade no trato intelectual com as labirínticas complexidades da memória, jamais manifestou interesse. Pelo menos não de público.
Últimas 400 das 3 mil páginas que compõem o afresco deste símbolo da cultura francesa, ‘‘Les Temps Retrouv钒, agora com suas duas horas e 40 minutos de duração em belíssimas imagens, é na tela, para dizer o mínimo, um ato de bravura. Um tour de force que, se não chegou a provocar entusiasmo, na pior das hipóteses põe definitivamente de lado a idéia de que o autor e o cinema são irreconciliáveis. E embora não seja nem de longe um exercício de vulgarização da obra, de redução empobrecedora de um texto literário de estilo portentoso, é certo que sua veiculação pelas salas de exibição pode vir a representar um convite para que as novas gerações tenham acesso menos traumático com o fascinante e denso habitat de Proust.
Reconhecidamente um cineasta irregular e original de filmes extravagantes e bizarros que dificilmente chegam ao grande público, o mais curioso é que Raoul Ruiz realizou uma adaptação de rara dignidade, fez a sua leitura do texto com zelo e respeito, mas sem subserviência, de maneira criativa, inoculando doses de fina ironia. O resultado é satisfatório, acima de média mesmo, se for levado em conta o volume escolhido, justamente o último da obra, que representa a síntese de tudo. Na verdade, não há em ‘‘Le Temps Retrouv钒 uma trama como nos volumes precedentes. Há tão somente os fantasmas na memória do narrador doente, em seu leito de morte em 1922 - e aí o cinema habitualmente fantástico de Ruiz se dá bem. Diante dos olhos do espectador desfilam as dezenas de personagens, são reconstituídas outras tantas situações. A construção é hábil, engenhosa, sutil, com impecável desenho de produção. Imagens de uma vida inteira vão compondo caprichosamente uma espécie de mosaico, em realidade algumas frações da vasta reserva de informações escritas sobre os personagens nos volumes precedenes.
Odete (Catherine Deneuve), Gilberte (Emmanuelle Béart), Charlus (John Malkovitch), Albertine (Chiara Mastroianni), Madame Verdurin (Marie-Frances Pisier), Saint-Loup (Pascal Greggory), entre outros, representam a fauna social decadente criada e observada atenta e detalhadamente por Proust (Marcelo Mozzarella, com incrível semelhança física e desempenho balanceado capaz de administrar tanto uma necessária presença opaca e distante quanto uma permanecia tangível enquanto testemunha e afinal cronista dos acontecimentos). O estilo visual de Ruiz consegue provocar na platéia um certo ar de estranhamento, uma espécie de ‘‘estar-não-estando’’. E isto, em se tratanto de adaptar o que parecia inadaptável, é um elogio.

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