O público era pequeno, mas mesmo assim o debate sobre literatura beat deu o que falar anteontem em Londrina com a presença dos escritores Reinaldo Moraes, Antonio Bivar, Nelson Capucho, Mário Bortolotto e Márcio Américo (que substituiu a Ademir Assunção na mesa).
O evento foi realizado no Teatro Zaqueu de Melo e organizado pelo grupo teatral Cemitério de Automóveis, como parte das comemorações dos 50 anos da Biblioteca Pública. Além da parte expositiva, o encontro incluiu uma leitura poética com acompanhamento de alguns músicos de rock, que estiveram o tempo todo no palco ao lado dos convidados e de atrizes do Cemitério.
A piada era que, por pouco, haveria mais gente no palco do que na platéia. Reinaldo Moraes, autor dos romances ''Tanto Faz'' e 'Abacaxi'', gostou da noitada e em entrevista à Folha 2 falou dos beats, de seus livros e de seus novos projetos.

Algumas pessoas que assistiram ao debate anteontem com vocês sobre literatura beat, saíram desapontadas do Teatro Zaqueu de Melo. O comentário era de que foi um encontro caótico e desorganizado. O que você acha dessa avaliação?
Quem foi esperando uma palestra convencional ou acadêmica, saiu frustrado. A gente fez um evento beat. Havia dois músicos ali, bêbados na mesa e todo mundo que quis falar, falou. A platéia participou até o fim. Parecia um happening dos anos 60, que é uma coisa ultrapassada, mas que ainda funciona. Não foi uma mesa organizadinha. Foi animado, intencionalmente caótico, ainda que ninguém tivesse combinado nada.

Qual é a pertinência em se discutir a literatura beat hoje?
A literatura beat é sempre atual e estimulante. Ela rompeu com os cânones, fugiu das fórmulas e foi importantíssima sobretudo nos Estados Unidos onde o mercado editorial é baseado em best-sellers e gêneros estanques. Ela marcou um momento em que os escritores estabeleceram um contínuo entre a vida e a obra, um momento em que eles passaram a escrever sobre o que estavam vivendo ou que imaginavam através da experiência com as drogas. O Burroughs (Willian) só falou de sua própria vida no primeiro livro, 'Junky', quando narrou a morte de sua mulher e seu envolvimento com a heroína. Mas depois só abordou o universo delirante, elegendo a demência como uma construção literária tratando, por exemplo, do estado totalitário. No Brasil, a leitura dos beats é muito mais estimulante porque por aqui predomina uma literatura de bacharéis em que todos querem tratar de temas relevantes. Beat é atual e bem melhor que Paulo Coelho.

Você já era influenciado pela literatura beat quando escreveu os romances ''Tanto Faz'' e ''Abacaxi'', nos anos 80?
Quando escrevi o 'Tanto Faz', em 1981, ainda não tinha lido os beats. Mas tomei contato com o romance ''Memórias de um Velho Sujo'', do Charles Bukowski, que me inspirou bastante. Depois, toda literatura americana que combinava confissão e ficção passou a me interessar. Gostava dos autores que julgavam relevante falar do irrelevante, das coisas que não estão na pauta dos grande temas literários, do cara que vai para a estrada e conta suas experiências banais. Nesse sentido, a literatura beat é muito liberadora, é um porre de liberdade criativa.

Você não publicou mais nada depois do ''Abacaxi''. O que houve?
Eu comecei a escrever para viver. Escrevi os textos das novelas ''Helena'' (TV Manchete, 1987) e ''O Campeão'' (Band, 1996), além de roteiros para vídeo e cinema, entre eles o do filme ''Tainá''. Quanto aos livros, só agora estou desempacando. Estou terminando dois romances, um que beira o beatnik, e outro juvenil que lembra um sitcom por causa do humor. Mas o fato de ter uma produção pequena, não é tão ruim. O Milton Hatoum escreveu apenas dois livros, ''Relatos de um Certo Oriente'' e ''Dois Irmãos'', e no entanto o considero o escritor mais importante hoje do Brasil.

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