A primeira boa surpresa que há três meses sacudiu o até então apático Festival de Veneza chegou à mostra como uma espécie de furacão. O filme, que não é original e nem tem pretensões à grande arte, está em lançamento no Brasil. Veio do México, com a assinatura de um diretor que há dez anos começou a carreira em seu país com a muito bem-sucedida comédia negra ''Solo con tu Pareja'', sobre um homem que pensa ter sido infectado com o vírus HIV. O cineasta Alfonso Cuarón, nos anos 90 cooptado por Hollywood para fazer o anódino ''A Princesinha'' e a refilmagem de ''Grandes Esperanças'', voltou ao México para ''buscar a identidade'', como confessou em Veneza. E auxiliado no roteiro pelo irmão Carlos e no elenco por um trio magnífico, ele é o maior responsável por este delicioso ''Y Tu Mamán También'' (veja a programação de cinema na página 5).
O cinema americano é contumaz barateador do tema da adolescência que se despede, e salvo honrosas e naturalmente clássicas exceções (''Houve Uma Vez um Verão'', de Robert Mulligan), a vala comum está sempre abarrotada. ''Y Tu Mamá También'', apesar da superficie enganosa que convida a uma troca de títulos ''American Pie'' por ''Tortilla Mexicana'' , é um road movie que vai muito além de somente apimentados sketches pubescentes de olho no box office.
Aos dezessete anos, os amigos Julio e Tenoch (Gael Garcia Bernal e Diego Luna, melhores atores estreantes, Trofeu Marcello Mastroianni em Veneza 2001) vivem a irresponsabilidade de quem é governado somente pelos hormônios. Numa festa, conhecem a bela prima de um deles, a já adulta Luisa (Maribel Verdú, mais mulher e mais atriz, passados oito anos de ''Belle Époque'' de Fernando Trueba, vencedor de Gramado-94 e Oscar de filme estrangeiro) e a convidam para uma viagem ao litoral. Ela curtindo uma confessada traição do marido, eles antevendo a grande aventura sexual, aquela fantasia erótica que habita sonhos libidinosos da adolescência planetária. A jornada em busca do mar e de prazeres hedonistas de fato ocorre, mas quanto mais o trio avança pelo interior à procura do litoral, mais se defronta com um país conturbado, socialmente fragmentado.
De voyeur a participante, o espectador, conduzido também por um narrador que em off enriquece o relato com detalhes saborosos e informações vitais, se une com imenso prazer a esta viagem ao mesmo tempo sensual, bem-humorada e reflexiva. Que vai não apenas definindo perfis e comportamentos psicológicos, mas ainda esmiuçando uma rica, complexa paisagem antropológica, política e social.
Absolutamente integrados, roteiro, direção e elenco fazem de ''Y Tu Mamán También'' uma experiência fascinante. (C.E.L.J.)

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