A liberdade vive nos blogs
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de setembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Se alguém ainda acha que não há nada de novo na literatura é porque nunca acessou um blog. Não que todas as coisas publicadas no diário virtual sejam primorosas. Há muito lixo na rede, assim como nas prateleiras das livrarias, mas não há como negar que, depois de um longo e tenebroso inverno, há algo de novo nas tendências literárias.
Para quem ainda não se familiarizou com o termo, anote: blog é uma junção das palavras inglesas web (rede) e log (diário de bordo). No espaço eletrônico, qualquer pessoa pode registrar cronologicamente fatos do cotidiano, assim como dar sua opinião sobre os acontecimentos reais ou apenas contar como foram as compras no supermercado. Vale tudo. No blog, os escritores são os próprios personagens.
Para o músico e blogger Julian Barg, 31 anos, o espaço é uma alternativa para se livrar das barreiras do sistema. No endereço peguenomeublog.blogspot.com, que mantém desde março deste ano com cerca de 25 mil visitas, ele aproveita para comentar os lançamentos ou preciosidades na música, cinema ou qualquer outra situação que lhe convém. A linguagem não é das mais comportadas. ''Mas é para isso que serve um blog, para você escrever com liberdade de expressão'', justifica.
Barg prefere sair do esquema ''conte como foi seu dia'' no espaço que atualiza quase diariamente. ''Não gosto do estilo ''reality show'', mas é interessante observar como funciona a psicologia humana. As pessoas se sentem mais livres para falar sobre elas virtualmente'', opina, apesar de confessar não acessar outro blogs com frequência.
Já para a professora de artes e funcionária pública Tita Blister, 32 anos, o blog que ela mantém desde o início do ano, ajudou a superar dificuldades emocionais e se aproximar mais das pessoas. ''Depois que minha mãe morreu eu tive uma espécie de falência mental. O blog me ajudou a colocar para fora as coisas que estava sentido e não tinha coragem de falar'', relata.
O blog também ajudou Tita a encontrar amigos que não via há muito tempo. Escrevendo sobre uma amiga da adolescência um dia desses, ela teve uma surpresa quando recebeu notícias dessa mesma pessoa, que havia acessado o seu blog. ''É um jeito de matar a saudade dos amigos, além do mais você escreve numa linguagem mais acessível do que se está acostumado''.
Para quem tem pretenções literárias, saiba que muitos editores têm ficado de olho na rede à procura de novos talentos. Não que escritores-personagens sejam novidade, mas ultimamente uma legião deles tem surgido. Exemplo (bom) é a gaúcha radicada em São Paulo Clarah Alverbuck, que mantém um dos blogs mais visitados, o brasileirapreta.blogspot.com. e recentemente lançou o cotadíssimo livro ''Máquina de Pinball'' (Conrad Editora).
Além de não precisar ter papas na língua (mas fique ligado, palavras chulas nem sempre são motivação para os internautas manterem o acesso), a vantagem para quem mantém um diário virtual é facilidade de criar o espaço (leia textos nesta página com dicas do blogger Julian Barg) e atualizá-lo. Os mais jovens fazem com tanta facilidade quanto um grafiteiro manipula um spray em um muro branco. Os mais velhos podem aprender com tanta destreza quando empunhar uma Bic. E se você tem aqueles manuscritos guardados, é uma ótima oportunidade para publicá-los. Agora, o mercado editorial tem um concorrente.


