A liberdade em julgamento
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quarta-feira, 01 de outubro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoWoody Harrelson e Courtney Love: O Povo Contra Larry FlintJá é tradição. Todos os anos, o Festival de Cannes promove uma Lição de Cinema. Uma aula, por um mestre. Um nome consagrado, que durante cerca de duas horas pensa em voz alta as coisas do cinema. Dele e do mundo. Em 97, ano do cinquentenário da mostra, o convidado foi Milos Forman. Na quarta-feira, 14 de maio, duas horas antes do início, não havia lugar para mais um único aluno no amplo Salon des Ambassadeurs, um dos espaços nobre do Palácio dos Festivais. Espremidos mas reconfortados, cerca de 500 jornalistas de todo o mundo. Na primeira fila, magnetizados, Godard, Bertolucci, Clint Eastwood, Coppola, entre outros. Ouvindo e, quem sabe, levando dever para casa.
Ninguém mais histórica e artisticamente autorizado e habilitado para dirigir O Povo Contra Larry Flint do que o tcheco Milos Forman. Refinado diretor de ótimas comédias de costumes e engajado ativista da chamada Primavera de Praga, uma espécie de terremoto democrático que nos anos 60 fez tremer os fósseis do cripto-comunismo então hibernando na Tchecoslovaquia, Forman foi obrigado a mudar de ares quando os tanques encheram as ruas e sufocaram o movimento. Era 1969, e o local escolhido para o exílio foi a América. Ali, ironicamente, Forman iria tornar-se um dos mais diligentes críticos dos costumes da sociedade americana. E logo na estréia, em 71, com a sátira Taking Off, bom em seu tempo mas hoje um filme datado e mera curiosidade histórica, como muitos títulos surgidos nos Estados Unidos no fim dos 60 e início dos 70.
Mas a promessa deste primeiro filme americano seria realizada plenamente quatro anos mais tarde com Um Estranho no Ninho, vigorosa estocada no autoritarismo institucionalizado. Apesar de antiestablishment, o filme levou cinco Oscars, um deles para o atrevimento de um diretor estrangeiro que mal falava inglês. Não satisfeito, Forman voltou à carga em 79 com nova ousadia: a adaptação do musical Hair, um ícone da contracultura nos comunitários e floridos anos 60. Já Ragtime, sua tentativa seguinte de explorar o lado obscuro do sonho americano, não foi muito convincente e ficou na periferia. Mas outro sucesso (e outro Oscar) estaria reservado a Forman em 84: Amadeus, uma festa para olhos e ouvidos, um lance de rara inspiração. E a confirmação de que todos os filmes traziam em comum um tema subjacente: o ser humano em busca da plena liberdade.
Primeira Emenda Fiel a seu currículo de franco-atirador socialista, Forman se encantou com o roteiro de O Povo Contra Larry Flint (o título acompanha o original, e se refere ao processo movido pelo Estado contra o cidadão e empresário Larry Flint). E não era para menos. Prato cheio para os incendiários de plantão - como Oliver Stone, aqui somente fazendo as vezes de produtor - a cinebiografia do fundador e editor de Hustler, a mais famosa revista pornográfica do mundo, trazia no papel todo o potencial para um filme polêmico, justamente numa época de nova onda moralizadora nas artes e na mídia nos Estados Unidos.
Pura dinamite, o argumento. Mais especificamente, uma história baseada na vida controvertida do pornógrafo e ativista pelos direitos civis Larry Flint, durante anos processado por obscenidades. Casado com uma go-go girl, Flint sofreu um atentado em 78, sendo atingido pela bala de um fanático de cruzadas antipornô que o deixou paralisado da cintura para baixo. Acabou ganhando o caso na Suprema Corte, sempre invocando a prerrogativa da Primeira Emenda da Constituição americana, que entre outras coisas garante a liberdade de expressão. Foi ainda candidato à Presidência, em 83. Ano passado, aos 54 anos, Flint não só forneceu preciosa assessoria à produção como considerou o roteiro absolutamente honesto e fiel aos fatos. Era esse o gancho que faltava para Stone fisgar Milos Forman, que ficou impressionado com a luta solitária de um homem para ter o direito de publicar o que bem entendesse. Nesta cinebiografia do rei do pornô americano e mundial, Forman optou por fazer um filme de arte, em que a pornografia é abordada circunstancialmente. O que interessou ao diretor foi a opressão pelo aparelho estatal, a intimidação e a capacidade de reação e luta do acusado.
O elenco de O Povo Contra Larry Flint traz Woody Harrelson como Flint, no papel que o ator com certeza estava esperando. E que soube aproveitar. A mulher de Flint, Althea, é vivida por Courtney Love, a alegre viúva do roqueiro-kamikaze Kurt Cobain. Uma agradável surpresa.


