A liberação de Branca de Neve
Filme de Anne Fontaine traz personagem dos contos de fada muito mais permissiva
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de setembro de 2019
Filme de Anne Fontaine traz personagem dos contos de fada muito mais permissiva
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
“Antes, eu nem sequer sabia que tinha desejos; agora quero vivê-los”. A cineasta francesa Anne Fontaine elegeu como personagem central de seu filme “Branca Como a Neve” aquela mesma moça do célebre conto dos Irmão Grimm. Mas aqui ela é uma Branca de Neve liberada (além de bela, transparente e pura, como sua gênese literária) e também muito mais permissiva em seus costumes. A exemplo da inconformista versão espanhola de 2012, Fontaine decidiu convocar o imaginário e fraturar os códigos da história tradicional. O resultado é um afresco burlesco e comprometido. E fascinante. E libidinoso.
Eclético, inusitado, extravagante e frequentemente bizarro, o cinema de Anne Fontaine. Em “Blanche comme Neige”( em exibição na cidade) ela captura um clássico da literatura e o universo ao redor; mas o mergulha num pote de modernidade e deixa ferver os ingredientes. Tudo em seus lugares, mas nada como foi plasmado um belo dia na mente lúdica do espectador. A madrasta, agora mais ciumenta que invejosa; os sete “anões”, adultos seduzidos pela jovem; a maçã envenenada. A fantasia original é subvertida pelo roteiro, que divide a narrativa em três partes. Após o mistério inicial, o filme se diverte propondo códigos, inclusive hitchcockianos. Amparada por ótima direção de arte e pela música composta por Bruno Coulais, Fontaine elabora lentamente (sem abrir mão do humor) uma intriga que oferece um cenário ideal às duas protagonistas - a “enteada” Lou de Laage e a “madrasta” Isabelle Huppert - e aos personagens secundários masculinos (o viés lúdico do filme sugere ao espectador tentar enquadrar os pretendentes de Claire no perfil de cada “anão” do conto de fadas).

Seguindo o preceito de Santo Agostinho “ame e faça o que quiser”, Claire libera sua sensualidade. Ela se descobre uma nova mulher, se emancipa dela mesma, de seus próprios desejos, de suas próprias escolhas. Meticulosa (e pretensiosa, por que não?) essa cineasta Fontaine, que pretende também desconstruir o modelo patriarcal, criando homens com fraquezas. E ela de fato consegue, na cena final, modernizar a imagem do príncipe encantado, à beira do leito de Claire-Blanche de Neige, que por sua vez oferece novo ponto de vista para o “beijo da ressurreição”. Queiram ou não, gostem ou não, a realização resulta em sofisticado comentário sobre a emancipação afetiva e sexual de uma mulher. Tema que, ninguém ignora, vem ressoando sem retrocessos no planeta contemporâneo.


