A leveza da idade avançada
A leveza da idade avançada
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
A instalação (seria equivocado chamar de espetáculo teatral) que a companhia alemã Angie Hiesl realiza no Festival Internacional de Londrina 98, X-Vezes Gente Cadeira pode ser descrito de maneira simples. Cadeiras pregadas em paredes de edifícios, a uma altura de seis metros, com pessoas idosas acomodadas em seus acentos realizando ações variadas.
A princípio X-Vezes Gente Cadeira pode ser encarada como uma obra criada apenas para interferir no ambiente urbano, para causar uma sensação de estranheza nos transeuntes. Uma alteração na rotina do tráfego humano pelas movimentadas ruas do centro da cidade. O espectador vê, acha estranho e segue seu caminho. Alterando o contexto cotidiano do espaço urbano também altera, consequentemente, nem que por alguns segundos, o foco de atenção dos transeuntes.
Se encarada apenas através desses elementos, X-Vezes Gente Cadeira revela-se profundamente vulnerável como grande parte das instalações. Ela se sustentaria pelo conceito.
Olhando com um pouco mais de atenção, a obra de Angie Hiesl abarca implicações sutis que lhe dão maior sustentação. Ao retirar o objeto cadeira de seu contexto normal, com os quatro pés no chão, confere ao objeto uma nova dimensão espacial. Descontextualiza o objeto sem subtrair sua função principal, acolher corpos cansados. Ao colocar pessoas com mais de 60 anos em cadeiras suspensas, potencializa seu conteúdo jogando com a fragilidade física dos idosos e o suposto perigo das alturas. Também leva em conta o elemento vertigem que se contrapõe com a segurança dos pés no chão.
Tudo parece indicar que o mais importante da obra não são as cadeiras suspensas em paredes de altos edifícios, mas quem as utiliza: a velhice. Numa sociedade que coloca seus velhos de escanteio, escondidos em quartos escuros, X-Vezes Gente Cadeira realiza o inverso. Expõe a velhice nos lugares mais visíveis, suspensa entre o céu e a terra. Uma posição que o espectador não consegue alcançar, mas que representa exatamente o seu futuro.
Contrapondo as grandes dimensões dos edifícios com a pequenez de um corpo humano simbólico, Angie Hiesl sugere um questionamento frente à destruição de uma legião de seres em nome do ditadura do indivíduo produtivo.





