A lenda viva ainda surpreende
Aos 74 anos, o ator Marlon Brando, um dos mitos de Hollywood, ainda consegue chamar a atenção sobre si. Suas opiniões sobre isso ou aquilo pouco - ou nada se sabe. A mais recente aparição nas telas - na verdade uma pequena mas valiosa participação - foi em O Bravo (97), dirigido por Johnny Deep. Que foi seu companheiro de tela no capa espada moderninho, Don Juan DeMarco (95). O sucesso em Don Juan é uma das melhores notícias que se tem do ator nos últimos tempos.
Rebelde e criador de caso, Brando sempre provocou sensação e problemas. Cobrou alto pelos seus papéis no cinema mas também pagou caro pela sucessão de tragédias em sua vida pessoal. A maior delas ocorreu em abril deste ano com o suicídio de sua filha Cheyenne, de 25 anos, no Taiti. Era filha de Brando com sua terceira mulher Tarita, a dançarina taitiana que ganhou um papel destacado em O Grande Motim (62) por capricho do astro. Entre seus nove filhos, dos quais três são adotivos, Cheyenne era a preferida e mãe de seu único neto, Tuki, de 4 anos.
A crise na família do ator piorou há 5 anos quando o meio-irmão de Cheyenne, Christian Brando, matou o companheiro dela, Dag Drollet. Christian foi condenado a dez anos de prisão na Califórnia. Numa tentativa desesperada de libertar o filho, Brando permitiu que os advogados o apresentassem ao júri como um pai exibicionista e pouco atencioso, incapaz de se ocupar com os filhos já que só o sucesso da carreira lhe interessava. Christian é filho do primeiro casamento de Brando, em 1957, com a indo-britânica Anna Kashfi, e foi o motivo de muitas brigas judiciais depois do divórcio, em 59. O ator casou-se novamente em 60, com a mexicana Movita Castenada, tendo um casal de filhos. Dois anos depois oficializou sua união com Tarita.
Em sua autobiografia escrita com a ajuda do jornalista Robert Lindsey e lançada no ano passado, Marlon Brando diz que apesar dos amores fracassados sempre teve sorte com as mulheres. Tive muitas na minha vida, embora não tenha passado mais do que alguns minutos com elas. Tive casos demais para imaginar que eu fosse um homem normal, racional, revela.
No livro, o ator também fala dos pais e conta que sua mãe, Dorothy e seu pai, Marlon, eram alcoólatras e que seu relacionamento com eles era muito conturbado. Meu pai era vendedor, torturou-me emocionalmente e tornou a vida da minha mãe miserável, escreve o ator. E confessa: Minha mãe era alcoólatra, mas eu a amava, apesar de ser ignorado por ela. Eu estava ao seu lado na cama do hospital, segurando sua mão, quando ela morreu.
Quando Marlon Brando Jr. nasceu em Omaha (Nebraska, EUA) em 3 de abril de 1924, sua mãe, Dorothy Pennebaker era uma das professoras da Escola de Arte Dramática local. Ainda garoto, Brando decidiu que seria ator, principalmente para satisfazer a mãe, uma atriz frustrada porque o marido a impediu de seguir carreira. Aos 20 anos chegou em Nova York para estudar arte dramática com Lee Strassberg e seu futuro mentor Elia Kazan, no Actors Studio.
Em sua biografia, Brando também revela que manteve um romance com Marilyn Monroe, quando ambos estudavam nesta famosa escola de teatro. Marilyn e eu tivemos um caso e nos encontramos frequentemente por anos, garante. Na última vez em que nos falamos, ela me convidou para jantar. Eu já tinha outros planos na ocasião e prometi telefonar de volta na semana seguinte. Ela aceitou. Dois ou três dias depois Marilyn estava morta.
O jovem e belo ator teve sua grande chance na Broadway em 1947, quando, escolhido pelo próprio autor, Tennessee Williams, viveu Kowalsky em Um Bonde Chamado Desejo. O sucesso repetiu-se em 51, com Uma Rua Chamada Pecado, versão cinematográfica da peça de Williams. Em seguida vieram outros trabalhos em Viva Zapata (52), O Selvagem (53), Júlio César(53) e Sindicato de Ladrões (54) que lhe rendeu um Oscar. Interpretou Napoleão Bonaparte em Desirée (54) e foi o filósofo japonês de Casa de Chá do Luar de Agosto (56).
Dirigiu e produziu A Face Oculta (61) mas teve prejuízo. Seguiram-se anos difíceis com filmes menores. Exceção feita para atuações em Vidas em Fuga (60) e Caçada Humana(66). Em 71, começa uma segunda fase de grandes sucessos. A Paramount desembolsou US$ 20 milhões para tê-lo em O Poderoso Chefão. Seu Don Vito Corleone valeu mais um Oscar como melhor ator. Mas Brando, imprevisível, pediu a uma índia que lesse uma mensagem recusando o prêmio em sinal de protesto contra o tratamento dado aos pelesvermelhas nos faroestes.
Sempre disposto a provocar, Brando surpreendeu outra vez no filme de Bernardo Bertolucci, O Último Tango em Paris(72). Na época, foi um verdadeiro escândalo e o filme acabou proibido em diversos países por causa das cenas de sexo. Hoje, já está nas prateleiras das locadoras ao lado de outros trabalhos que mostram a trajetória do ator.
No final da década de 60, graças aos cachês milionários, o ator comprou a ilha Tetiaroa, no Taiti, local pelo qual se apaixonara quando filmou O Grande Motim, e onde passou a viver. De agora em diante vou levar a vida simples do povo do Taiti, declarou o ator na época. Depois do sucesso do O Poderoso Chefão e O Último Tango em Paris, Brando reaparece em 77, já gordo e envelhecido mas faturando alto por uma rápida aparição (não mais do que 20 minutos) no papel de Jor-El, o pai do Superman. Em seguida, participou de Apocalipse Now (79).
Ainda mais pesado, cabelos brancos e ralos, Brando volta ao cinema em 89, depois de dez anos de ausência. Podendo ainda exigir ótimos cachês, pediu apenas um pagamento simbólico para interpretar o advogado de Assassinato Sob Custódia, filme-denúncia dos abusos cometidos pelo apartheid na África do Sul. Com apenas dez minutos de aparição, tornou-se o grande destaque do filme e até recebeu uma indicação para o Oscar de coadjuvante.





