A LENDA LEVA O GRAMMY
O Brasil confirmou seu favoritismo anteontem à noite, durante a 43ª edição do Grammy, realizada em Los Angeles, ao eleger João Voz e Violão, de João Gilberto, como o melhor disco de world music. Essa é a quarta vez consecutiva que um brasileiro abocanha o prêmio nessa categoria Milton Nascimento, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram vencedores nas últimas edições. O cantor e compositor baiano, o nome máximo da Bossa Nova e uma lenda da MPB, não estava presente à cerimônia. Essa é a segunda vez que João Gilberto ganha o prêmio nessa mesma categoria a primeira foi em 1964 com Getz/Gilberto, dele com Stan Getz.
Mas o Brasil foi lembrado também com a vitória de Sting, que faturou seu sexto Grammy com composição de Ivan Lins, na categoria melhor interpretação masculina pop com a música She Walks this Earth (versão em inglês de Soberana Rosa). Por meio de sua assessoria, Ivan Lins disse que, para um brasileiro, vencer o Grammy é como ganhar o jogo na casa do adversário e que essa premiação indireta não é uma vitória particular, mas dos artistas e compositores brasileiros.
A noite do Grammy, que prometia ser agitada, acabou monótona e formal. Houve, entretanto, algumas surpresas. Ou melhor, zebras. Madonna começou bem, porém saiu de mãos vazias. Eminem perdeu o prêmio de disco do ano para o duo de veteranos do jazz Steely Dan. Enquanto isso, o U2 correu por fora e voltou para casa com três estatuetas. A cerimônia começou com uma ótima apresentação do hit Music, de Madonna. A pop star, de cabelos mais curtos e vestindo uma camiseta em que se lia Material Girl, saiu de uma limuzine inteira revestida de espelhos, dirigida por Lil Bow Wow, de 13 anos. Com uma banda mais orientada para a percussão e 12 dançarinos, ela fez um número de tirar o fôlego mas não teve mais nenhum momento próprio na festa.
A julgar pelos resultados, os 13 mil membros da Academia de Artes e Ciências Fonográficas começam a dar sinais de cansaço em relação à falta de qualidade no pop americano. Já é um ótimo sinal, por exemplo, que N Sync, Britney Spears e Christina Aguillera não levaram prêmios para casa. Outro bom sinal foi a vitória de Macy Gray na categoria de melhor performance vocal pop feminina, em que ela concorria com Madonna, Jonny Mitchell, Aimée Mann e Britney Spears. A música vencedora, I Try, também rendeu uma das mais emocionantes apresentações da noite. É a vitória de uma cantora que tinha tudo para ser considerada muito esquisita para o mainstream.
Entre as apresentações, pouca coisa se salvou. Fora a número de Eminem e Elton John que despertou curiosidade histórica , Christina Aguillera tentou evocar Ricky Martin para um show com pirotecnias e dançarinos latinos, mas não conseguiu convencer. Quem acertou em cheio foi Moby, que convocou o Blue Man Group para participar de uma estonteante percussão humana em Honey. Um coral de gospel e uma guitarra completaram a apresentação do artista que conseguiu fazer uma transição única da electronica para o pop.
O dueto de Eminem com Elton John foi importante como evento, mas musicalmente a versão de Stan com a cantora Dido é muito melhor. O rapper sampleou uma música da inglesa até então desconhecida para o refrão de sua faixa. O resultado é um dos maiores hits do momento graças, em parte, à voz aveludada da cantora. Mas John, que estava lá quando Marilyn Monroe morreu e que continuava lá quando a princesa Diana morreu, também achou que deveria estar lá quando Eminem foi crucificado por dizer que não gosta dos gays.
O rapper ganhou três estatuetas (melhor álbum de rap, por The Marshall Mathers LP, melhor performace de rap e melhor duo, por um trabalho feito com Dr.Dre), agradeceu às pessoas que conseguiram ir além da controvérsia para prestar atenção na música e saiu sem falar com a imprensa. Sua apresentação com Elton John teve um prelúdio do presidente da Academia, Michael Greene, justificando a decisão: A música sempre foi um instrumento da rebeldia, disse.
Uma das grandes surpresas foi o U2, que levou as estatuetas de canção e gravação do ano, além de performace de rock por um grupo, todas pela óbvia Beautiful Day. Os Estados Unidos não estão mesmo preparados para a qualidade e inovação de trabalhos como Kid A, o disco do Radiohead que ficou com o prêmio de melhor álbum de rock alternativo.
O choque maior, no entanto, foi no encerramento da cerimônia, quando o Steely Dan levou o prêmio de álbum do ano, por Two Against Nature. A dupla formada por Walter Becker e Donald Fagen há mais de 30 anos nunca havia ganhado um Grammy e o disco teve pouco mais de 1,5 milhão de unidades vendidas. Eles também venceram as categorias de performance pop por dupla ou grupo e álbum pop com vocais. Os dois músicos pareciam tão chocados quanto a platéia.





